Eberth Vêncio

A morte tá de brincadeira

A morte tá de brincadeira

Nem todos tinham o privilégio de ser amigos de um coveiro. Rochinha morava em Gueirobas da Serra, um vilarejo que não aparecia nos mapas oficiais da União. Três mil habitantes — se muito — bem contados, de mamando a caducando. Mais indivíduos caducando do que mamando. A maior parte deles, claudicando pelas ruas esburacadas. Ninguém ousava admitir, mas, a população de Gueirobas definhava a olhos vistos.

A fantástica solidão dos hiperconectados

A fantástica solidão dos hiperconectados

Estou quase me rendendo à simplicidade. No último final de semana, permaneci vinte e seis horas sem tocar no meu smartphone. Não fiz e não recebi ligações telefônicas. Os demônios do telemarketing não me localizaram. Os golpistas cibernéticos não furtaram o meu suado dinheirinho. Não surfei na rasura enfadonha dos grupos de WhatsApp. Não abri a minha caixa de Pandora, ou melhor, não abri a minha caixa de e-mails.

A gente existe é pra sentir

A gente existe é pra sentir

Amo a vida. Odeio a vida. A gente existe é pra sentir. Isso explica quase tudo. Não importa o sentimento. Ter saudade da infância. Ter vergonha dos deslizes. Decepcionar-se com um amigo. Invejar a paz alheia. Passar pelo desgosto de envelhecer e se tornar invisível. Estamos nesse mundo é pra sentir. Isso, em parte, mitiga o imenso vazio. A alegria de ter um bicho em casa. O contentamento de nada ser, de nada saber, ao explorar a lavra poética de um Fernando Pessoa.

Fábula do fim do mundo

Fábula do fim do mundo

Escondido atrás de uma moita de flores em Vétheuil, a oeste de Paris, às margens do rio Sena, ele sacou da cintura um peixe-espada com o qual tencionava arpoar uma indefesa vítima que roía raízes de um arbusto, quando foi atacado pelas costas por um tigre-de-bengala que claudicava faminto, depois de ter escapulido de um circo de horrores onde os últimos homens ímpios sobre a face da Terra tinham reacendido as velas da esperança, usando fagulhas de ódio dos remotos tempos de guerra entre as nações.

Mais do que a saudade, o que mata mesmo é a falta de intepretação de texto

Mais do que a saudade, o que mata mesmo é a falta de intepretação de texto

Que falta nos faz a máfia das loterias. A fraude nas bilheterias. A bola chutada para o mato quando o jogo era de campeonato. Faz tempo que a seleção brasileira não ganha um título mundial. Também pudera. Queria ver de novo aquele futebol moleque nos pés dos craques milionários. O VAR está matando o futebol. O fair play também. Que saudade do overlapping. Da lapada do sargento. Da fumaça e da asfixia.