Autor: Graça Taguti

Diz-me por onde olhas e te direi quem és

Diz-me por onde olhas e te direi quem és

Haverá olhos bonitos de olhar? A pergunta assoma neste instante. Donos de brilho repentino, luz clara, safra guardada na adega das recordações-de-todo-o-sempre. Normalmente nossa curiosidade visual fareja dissimulados esconderijos da rotina. Segredos trancafiados em gavetas do vizinho, que pretendemos expor a qualquer custo. Olhos esfaimados, dentados, vorazes e sanguinolentos, visando encontrar no ziguezague de filas intermináveis diante do filme de estreia, uma vaga esperta para se enfiar sem ser notado.

Ser a outra não é para qualquer uma

Ser a outra não é para qualquer uma

A outra costuma andar deslizando. Coleante e tortuosa como uma cobra. E chega com um breve silvo, se insinuando à meia luz na vida de um homem qualquer. Muitas vezes se veste de vermelho. Embora tenha veias hirtas, corre nelas um sangue quase espumoso, de um vermelho sacrílego, que trafega nos interstícios desse corpo. Ela até nos faz recordar daquele ditado sobre a inveja. Um prato que se come frio e que está sempre ali disposto à serventia.

Pequena bula de como viver na pressa, com paz e muita ginga

Pequena bula de como viver na pressa, com paz e muita ginga

Hei essa proposição aí de cima é meio que absurda, né. Porque hoje — sem climas de sadomasoquismo, explicando logo de saída — a gente passa os dias inteiros chicoteados pelo tempo. A maldição dos segundos. Que jamais param nem pra respirar. Ou mesmo tomar uma água. Droga. Tempo, tempo, tempo, tempo, até a música clama. O fato é: não conseguimos, até o momento desarmar essas engrenagens confusas dos relógios da nossa existência, que bebem energéticos gasosos continuamente. E rodam em círculos, martelando as nossas atividades e tarefas, como filme de terror, na pressão. E na moral. Ninguém discute os domínios do tempo.

“Sem tesão não há solução”

“Sem tesão não há solução”

No final dos anos 80, quando muitos dos futuros leitores da Revista Bula ainda não tinham nascido, um irrequieto psiquiatra, Roberto Freire, nadando por rios primitivos do imaginário — e posicionando-se contra a corrente de hábitos carcomidos, assumiu pensar fora da caixa do social. Atirou ao lixo os restos de discursos terapêuticos mascarados, acolchoados em bolsas de gelo verbal. Quebrou as plácidas e acomodatícias normas do bem viver.

As virtudes que o século 21 perdeu

As virtudes que o século 21 perdeu

O século 21 está aí, acordando juntinho da gente todos os dias. Puxando a colcha para o seu lado, no intuito de angariar ótimas noites de sono, enquanto nos deixa descobertos e carentes sobre um colchão frio. Ele nunca nos abraça, não tem tempo para conversar conosco. Seu café da manhã consta apenas de chá de bites e torradas com chip. É um parceiro que não admite divórcio, portanto precisamos manter esta relação até que a indefectível morte nos separe. Ou, quem sabe, uma miragem em 3D nos projete para o paraíso das conjugalidades virtuais.