Baseado em uma história real que o mundo tentou esquecer: filme indicado ao Oscar 2025 chegou ao Prime Video Divulgação / Constantin Film

Baseado em uma história real que o mundo tentou esquecer: filme indicado ao Oscar 2025 chegou ao Prime Video

Nem todas as palavras nascem com data marcada. Algumas se arrastam pela história até serem forçadas a ocupar o centro do palco. No caso de “terrorismo”, esse ponto de virada aconteceu em 5 de setembro de 1972. Era o vigésimo ciclo olímpico da era moderna, e o que deveria ser uma celebração universal da paz e do esporte transformou-se numa encenação global do horror. O ataque promovido pelo Setembro Negro à delegação israelense, em plena vila olímpica de Munique, marcou não apenas o brutal assassinato de atletas, mas também um novo enquadramento da violência política diante das câmeras: o terror como espetáculo. “Setembro 5”, dirigido por Tim Felhbaum, retrocede mais de meio século não apenas para contar esse episódio, mas para nos imergir na lógica perversa que passou a reger o mundo após aquele dia. Nada mais parecia seguro. Nada mais parecia claro. A ordem internacional cambaleava diante da constatação de que o século 20 já não obedecia a qualquer racionalidade compartilhada.

A reconstrução de Felhbaum não é documental no sentido tradicional. Em vez de buscar neutralidade, ele opta por uma evocação meticulosa, quase implacável, dos bastidores de uma cobertura jornalística à beira do colapso. Instalados numa sala de controle obsoleta, os profissionais da ABC Sports revelam uma dança de tensão e improviso, comandados por um Roone Arledge ainda em ascensão, mas já tomado pela grandiosidade do momento. A televisão, então ainda em transição entre a crônica esportiva e a cobertura em tempo real de eventos imprevisíveis, é retratada como uma engrenagem atordoada por sua própria impotência. As imagens não chegam com a clareza desejada, as decisões editoriais ocorrem entre espasmos de esperança e desinformação, e o desejo de transmitir tudo ao vivo se choca com a natureza incomunicável da barbárie. Felhbaum resgata a fragilidade de uma imprensa que ainda não havia sido treinada para o caos.

A brutalidade dos sequestradores, por sua vez, emerge sem disfarces nem dramatizações vazias. A presença dos corpos de David Mark Berger e Yossef Romano — especialmente este último, submetido a uma violência que beira o ritual de dominação — instala o espectador em uma zona de desconforto onde nenhuma empatia é possível, apenas a constatação crua da selvageria. A ABC não filmou, os jornalistas não sabiam, e o mundo só pôde conhecer esse nível de abjeção após investigações alemãs meticulosas. Essa distância entre o horror vivido e o horror transmitido se torna um dos eixos da reflexão conduzida pelo filme: o que se mostra e o que se apaga, o que se informa e o que se omite, o que é visto e o que é compreendido.

Conforme o enredo avança, Arledge cede o foco a Geoffrey Mason, produtor incansável que transforma a cobertura em um exercício de resistência técnica e emocional. Mason não quer que a transmissão pare — e com ele, o filme discute os limites da narrativa jornalística frente ao absurdo. Quando a ABC informa falsamente que há sobreviventes, sem saber que os reféns já estavam mortos no aeroporto, a fratura entre verdade e transmissão se escancara. A mentira não foi intencional, mas foi televisionada. O eco dessa falha ressoa no tempo, como um lembrete da incapacidade humana de abarcar, em tempo real, as dinâmicas brutais de um mundo em decomposição simbólica. Nesse aspecto, a obra evoca não apenas “7 Dias em Entebbe”, de José Padilha, mas todo um arquipélago de relatos sobre terror e mídia, nos quais a cronologia é sempre incerta e a justiça nunca garantida.

Com atuações cirúrgicas de Peter Sarsgaard e John Magaro, a experiência encenada ganha densidade emocional sem jamais apelar para sentimentalismos. Cada gesto e cada silêncio sugerem que aquela transmissão, falha e heroica, ainda reverbera nas emissoras contemporâneas, cada vez mais saturadas de tragédias em tempo real. “Setembro 5” não trata de um evento encerrado em seu contexto histórico, mas de um espelho incômodo voltado ao presente. A data ficou no passado; sua lógica, não. E é essa permanência inquietante que faz do filme algo mais do que uma reconstituição — ele é um testamento sombrio de que as câmeras jamais desligaram. Elas apenas mudaram de lugar.

Filme: Setembro 5
Diretor: Tim Fehlbaum
Ano: 2024
Gênero: Documentário/Drama/Suspense
Avaliação: 10/10 1 1
★★★★★★★★★★