Se jogue no sofá com um balde de pipoca: comédia romântica feita para relaxar, na Netflix Divulgação / Sony Pictures

Se jogue no sofá com um balde de pipoca: comédia romântica feita para relaxar, na Netflix

Há filmes que não pedem licença para existir — apenas se sentam ao nosso lado no sofá e, sem prometer nada além de companhia, cumprem exatamente o que propõem. “Tudo em Família” habita esse território despreocupado onde o entretenimento leve não precisa justificar sua presença com grandes viradas ou discursos edificantes. Em vez de tentar disfarçar sua simplicidade sob o véu da sofisticação, o longa abraça o lugar-comum com certo orgulho, oferecendo ao espectador uma pausa sem exigências, mas não sem méritos.

A produção se distancia das estratégias que buscam a reinvenção do gênero, preferindo operar dentro de uma zona de conforto conhecida. No entanto, essa previsibilidade, longe de ser um defeito, funciona aqui como uma linguagem silenciosa entre filme e espectador: ambos sabem exatamente onde estão pisando. O roteiro, ainda que previsível, compreende a função do riso afetuoso, da surpresa controlada e do embaraço que provoca empatia. É um cinema que não tenta impressionar — e por isso mesmo conquista.

Na linha de frente desse pacto despretensioso está a personagem Zara, interpretada com surpreendente presença por Joey King. Ao contrário do que se poderia esperar em uma narrativa com dois astros veteranos no centro do conflito amoroso, é ela quem conduz o filme com agilidade, funcionando como fio condutor da comicidade e, mais discretamente, do afeto. Joey King não apenas sustenta a história: ela é seu principal motor emocional. Há um tipo de timing que não se ensina, e ela parece ter entendido como extrair graça mesmo dos absurdos mais implausíveis. Ao reagir, por exemplo, ao romance entre sua mãe e seu chefe, King encontra o equilíbrio raro entre o absurdo escancarado e a reação genuína — algo que mantém o espectador dentro da cena, sem cair na paródia involuntária.

Se o arco romântico entre os personagens de Nicole Kidman e Zac Efron soa inicialmente improvável — e talvez seja mesmo —, a estranheza dá lugar a uma curiosidade intrigante: por que não? O casal funciona não porque subverte convenções, mas porque as trata com ironia e afeto. Kidman, segura de si, oferece uma performance que aposta mais na contenção do que no exagero, e encontra em Efron um parceiro cênico surpreendentemente à vontade. A diferença etária entre os dois, que poderia ser fonte de desconforto narrativo, é tratada com naturalidade e até certa irreverência. Efron, mais carismático do que versátil, entrega um tipo que já conhece bem: o homem bonito, mas emocionalmente subdesenvolvido, que precisa ser confrontado com uma realidade mais densa do que gostaria. A interação entre ambos é, sim, sustentada por clichês, mas também por uma familiaridade de cena que impede o relacionamento de parecer artificial.

Ainda que a trama seja estruturada sobre situações facilmente antecipáveis, há uma inteligência estética que colabora com a construção do tom. A fotografia, atenta aos brilhos e disfarces do universo hollywoodiano, não apenas embeleza — ela comenta. As cores vibrantes, os cenários impecáveis, os figurinos cuidadosamente pensados: tudo parece deliberadamente excessivo, quase como se o filme risse de si mesmo ao mesmo tempo em que se exibe. Há uma autoconsciência cômica em jogo, sobretudo nas cenas em que o glamour é mostrado ao lado do ridículo — um comentário sutil sobre as máscaras e performances que habitam tanto o cinema quanto a vida.

Kathy Bates, ainda que relegada a um papel secundário, é um lembrete contundente de como presença e economia podem andar juntas. Sua personagem, escrita para servir de contraponto espirituoso às confusões românticas e familiares, surge pontualmente para devolver à narrativa certa gravidade bem-humorada, quase como se dissesse: “há sempre alguém observando esse caos com ironia”. A economia de sua atuação, aliada à precisão de suas falas, impede que sua participação soe decorativa. Pelo contrário, Bates se impõe como uma espécie de consciência irônica do roteiro.

É claro que o filme carrega algumas limitações. Os personagens coadjuvantes frequentemente funcionam mais como dispositivos cômicos do que como figuras plenamente desenvolvidas. As soluções narrativas, em especial nos conflitos afetivos, surgem de maneira apressada, como se houvesse um receio de mergulhar em zonas mais turvas. Mas essa relutância talvez seja coerente com a proposta: “Tudo em Família” não quer confrontar o espectador, apenas entretê-lo com leveza e uma pitada de irreverência.

No fim, a força do longa reside justamente na recusa de parecer mais do que é. Em vez de esconder seus atalhos narrativos ou tentar se disfarçar com pretensões estéticas, o filme faz da honestidade sua maior virtude. Ele não quer ser lembrado como marco, nem como manifesto: quer apenas ser lembrado com um sorriso — e, nesse sentido, talvez consiga mais do que muitas produções que miram alto e acertam longe.

Há, portanto, um mérito subestimado nesse tipo de cinema: o de saber ocupar o seu espaço sem ruído, como uma conversa leve que não precisa de grandes revelações para ser prazerosa. E se, ao término da sessão, o que fica é uma sensação de conforto, então talvez esse seja o tipo de cinema que, mesmo sem alarde, cumpre silenciosamente uma função vital. Afinal, nem sempre é o peso que marca — às vezes, é o toque leve que permanece.

Filme: Tudo em Família
Diretor: Richard LaGravenese
Ano: 2024
Gênero: Comédia/Drama/Romance
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★