Um faroeste disfarçado de drama romântico: Bradley Cooper e Jennifer Lawrence à beira da loucura — no Prime Video Divulgação / 2929 Productions

Um faroeste disfarçado de drama romântico: Bradley Cooper e Jennifer Lawrence à beira da loucura — no Prime Video

Sob a poeira tardia que recobre projetos mal compreendidos, “Serena” ressurge como um experimento incômodo e fascinante que desafia a lógica de prestígio hollywoodiano. Esquecido na prateleira dos distribuidores por mais de dois anos, o longa dirigido por Susanne Bier carrega uma estranheza estrutural que o impede de se curvar à previsibilidade dos grandes lançamentos — e talvez seja exatamente aí que reside sua singularidade. Não se trata de um fracasso disfarçado, mas de uma narrativa que recusa o conforto da obviedade, ancorada na tensão entre o apelo comercial de seus astros e a densidade instável do que propõe. Longe de ser uma vitrine para Jennifer Lawrence e Bradley Cooper repetirem o carisma de “Trapaça”, o filme arma uma armadilha mais sofisticada: subverte as expectativas, lança seus protagonistas em um território onde beleza, desejo e desintegração não pedem licença para entrar em combustão.

A escolha de ambientar o enredo em 1927, sob uma estética inspirada nos primeiros anos da década seguinte, não é um capricho visual, mas uma provocação silenciosa. Bier parece perguntar como seria ver Jennifer Lawrence transportada para a era de Greta Garbo, quando atrizes jovens não precisavam provar sua força em papéis masculinizados, mas sim revelar sua complexidade emocional com uma câmera a centímetros de distância. Lawrence, então com apenas 22 anos, não apenas sustenta esse deslocamento temporal — ela o assume com a segurança de quem compreende o peso simbólico de sua personagem. Serena não é apenas uma mulher marcada por um trauma de infância: ela é a encarnação de uma ambição que se recusa a ser domesticada, e é justamente sua dissonância facial, sua beleza imperfeita, que a torna inassimilável. O rosto de porcelana é interrompido por uma boca que não se alinha, uma assimetria que salva a personagem da previsibilidade estética e a projeta como figura trágica em potencial.

A trajetória de George Pemberton, o barão da madeira interpretado por Cooper, inicia como fábula de sucesso industrial e termina como espiral de perda de controle. Sua paixão por Serena começa como deslumbre e logo se transforma em submissão velada — não pela força física ou moral de sua esposa, mas pela presença que ela impõe ao ambiente, pela maneira como absorve para si o poder simbólico da floresta, da empresa, do desejo. Ao regressar da lua de mel e impor Serena como autoridade equivalente perante os operários, George não compartilha seu trono: ele abdica. A relação entre os dois não segue os contornos esperados de um casal poderoso — ela se torna uma figura mitológica, quase totêmica, que centraliza decisões, instiga ações brutais e modela a realidade ao seu redor com a mesma naturalidade com que doma uma águia para exterminar serpentes. A floresta deixa de ser cenário e passa a espelhar esse embate de forças: o instinto de preservação versus o ímpeto destrutivo mascarado de progresso.

Bier opera a mise-en-scène com mão firme e pulsão ambígua. Os closes desconcertantes alternam com planos amplos carregados de silêncio e ameaça, como se o espaço natural guardasse a memória dos excessos humanos. A câmera não observa com neutralidade; ela investiga, respira junto dos personagens, treme ao captar o momento em que Serena troca o autocontrole pelo desespero, ou quando George encara a desproporção entre sua masculinidade performática e a figura cada vez mais inexpugnável da mulher que o conduz à ruína. A diretora dinamarquesa, já consagrada em “Em um Mundo Melhor” e “Depois do Casamento”, entrega aqui não um melodrama clássico, mas uma construção oblíqua, quase ritualística, onde os arquétipos são corroídos por nuances. O tom fabular se dissipa em meio a decisões erráticas, diálogos abruptos e reviravoltas sem amparo psicológico, o que poderia parecer ruído, mas que, na verdade, acentua a instabilidade emocional do que se desenrola.

Ao contrário do que se esperaria de uma estrela de seu calibre, Lawrence não suaviza a aspereza de Serena — ela a acentua com convicção. Sua personagem é forte e vulnerável, impiedosa e apaixonada, pragmática e instável. Sua performance carrega a estranha coerência das grandes tragédias: mesmo quando seus gestos parecem desproporcionais, há uma lógica interna que os sustenta. Em uma sequência desconcertante, Serena se embriaga num jantar, dança provocativamente com outro homem e desencadeia uma cena de sexo conjugal marcada por raiva e possessividade — é nessa ruptura que o filme ganha fôlego, recusando o retrato higienizado do feminino e assumindo seu lado selvagem, incômodo, imprevisível. A decisão de Bier de manter a câmera próxima do rosto de Lawrence enquanto ela alterna entre a imobilidade e o colapso emocional é um gesto de confiança raro — e uma demonstração do que a atriz é capaz quando não está a serviço da lógica dos blockbusters.

Se “Serena” não se encaixa nos moldes tradicionais de prestígio é porque opta, deliberadamente, por escavar um terreno mais pantanoso. A violência aqui não é gritante, mas sedimentar; a loucura não se anuncia, mas contamina; o amor não redime, mas sufoca. E ainda que sua estrutura narrativa por vezes vacile, o filme mantém uma pulsação orgânica que o torna instável no melhor sentido — como se a própria floresta, com seus riscos silenciosos e beleza indomável, respirasse junto da trama. Ao final, quando tudo se desfaz em meio a chamas e decisões irreversíveis, o que resta não é a lembrança de um romance trágico, mas a constatação de que algumas histórias só podem ser contadas nos intervalos entre o controle e o colapso. “Serena” não busca consagração — ela exige disposição para o desconforto. E é justamente por isso que vale a pena enfrentá-la.

Filme: Serena
Diretor: Susanne Bier
Ano: 2014
Gênero: Drama/História/Romance
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★