O amor é real. O mistério também. E a melhor estreia da Netflix em abril vem dessa combinação rara Divulgação / Hulu

O amor é real. O mistério também. E a melhor estreia da Netflix em abril vem dessa combinação rara

Em um cenário que mistura rigidez cerimonial e vazios emocionais, o que se revela não é apenas uma história de amor impossível entre classes, mas um estudo minucioso sobre como a consciência individual nasce em meio à domesticação social. Jane Fairchild, criada de uma família aristocrática inglesa nos anos 1920, não caminha apenas entre cômodos alheios — ela transita entre esferas de existência que historicamente se mantêm incomunicáveis.

Por trás das cortinas pesadas e dos móveis polidos da casa dos Niven, onde trabalha, Jane carrega em silêncio a ousadia de desejar, de escrever, de compreender a vida por meio da observação precisa e do impulso literário. Enquanto seus patrões elaboram lutos com tal contenção que beiram a fossilização, Jane converte ausência em matéria-prima criativa. Aquele 30 de março — um domingo de primavera que coincide com o Dia das Mães — não é apenas a moldura de um romance clandestino; é o ponto de inflexão em que o mundo, até então contemplado à distância, começa a ser reconfigurado por ela com palavras próprias.

É nesse interstício entre submissão e autoria que Eva Husson insere sua lente, não como quem reconstrói um período histórico, mas como quem interroga os afetos reprimidos por ele. A câmera não privilegia a grandiosidade dos salões nem o verniz das boas maneiras: opta pelo detalhe íntimo, pelo instante em que o corpo respira desejo, medo, dúvida. Jane não é somente uma jovem em relação ilícita com Paul Sheringham, o último filho vivo de uma linhagem dizimada pela guerra — ela é, sobretudo, alguém que transforma a fugacidade de um encontro em potência narrativa. As cenas em que Jane vaga nua pela biblioteca de Paul não se prestam ao erotismo gratuito, mas expõem com uma franqueza quase ritual a transição da jovem observadora para a mulher que reivindica o direito de narrar a si mesma. Ali, entre volumes encadernados e vestígios de uma herança que não lhe pertence, ela inaugura uma autonomia silenciosa, mas irreversível.

Alice Birch, roteirista do filme, recusa a linearidade preguiçosa e tece a narrativa como quem revisita lembranças afetivas sob o filtro da criação literária. Os deslocamentos temporais — entre a juventude de Jane, sua relação madura com Donald, e os breves instantes vividos já idosa — não obedecem a uma ordem funcional, mas traduzem os modos pelos quais a memória atua sobre a escrita: fragmentária, emocional, imperfeita. A decisão de deslocar o centro da narrativa da aristocracia para uma mulher órfã, sem nome nem dote, não é apenas estética; é política.

Ao fazer de Jane a única personagem verdadeiramente capaz de transformar luto em linguagem, paixão em permanência, a história redireciona o foco da tradição para a subversão. Não por meio do escândalo, mas da criação. Não por meio da denúncia, mas da imaginação. É nessa chave que o filme se distancia dos paralelos com “Downton Abbey” ou “Gosford Park” — não há aqui nenhum esforço de reconstrução nostálgica, apenas a recusa de aceitar que o papel da criada seja o silêncio eterno.

Se Paul representa a fragilidade de uma elite em colapso, Donald — parceiro posterior de Jane — encarna a possibilidade de um afeto que não se baseia na hierarquia, mas na troca intelectual e sensível. Ainda que Paul e Jane compartilhem momentos intensos, é Donald quem divide com ela o tempo da maturidade, o terreno comum da escuta e do pensamento. A passagem entre esses dois homens não é arbitrária: marca a transição de uma subjetividade que, antes, só podia existir no interstício dos desejos alheios, e que agora encontra terreno fértil para florescer em sua totalidade. A escritora que Glenda Jackson interpreta em sua derradeira aparição é mais que um retrato futuro de Jane — é a comprovação de que não há tragédia que se imponha inteiramente sobre quem aprende a narrá-la. Ainda que as cenas finais com Jackson soem apressadas, elas carregam uma frase que ecoa: os prêmios brilham menos que a capacidade de construir, na escuridão, o próprio caminho.

Nada no filme busca revolução, mas tudo nele questiona o modo como as histórias costumam ser contadas — e por quem. A beleza aqui não se prende a planos simétricos ou figurinos impecáveis, mas se infiltra nos gestos mínimos que reconfiguram o mundo: uma mulher que entra pela porta da frente quando esperam que use a dos fundos; um silêncio quebrado por uma frase lida; um corpo que, despido, se apropria de um espaço que nunca foi seu. A trajetória de Jane Fairchild é a de alguém que atravessa a exclusão não como vítima, mas como testemunha lúcida e narradora sagaz. Em vez de aceitar a invisibilidade como destino, ela faz dela matéria de ficção. E ao fazer isso, redefine o que significa viver — não como quem sobrevive ao tempo, mas como quem o reescreve.

Filme: O Domingo das Mães
Diretor: Eva Husson
Ano: 2021
Gênero: Drama/Romance
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★