Último fim de semana na Netflix para o filme que passou 350 dias no Top 10 global — e rendeu 3,5 bilhões nos cinemas Divulgação / Paramount Pictures

Último fim de semana na Netflix para o filme que passou 350 dias no Top 10 global — e rendeu 3,5 bilhões nos cinemas

Ethan Hunt, em sua sétima corrida contra o improvável, não é apenas um agente enfrentando ameaças globais. Ele é a última figura crível de um heroísmo visceral, cada vez mais raro no cinema contemporâneo, em meio a um universo saturado por efeitos digitais e tramas que se dissolvem ao toque da primeira lógica. “Missão Impossível Acerto de Contas: Parte Um” escapa dessa anestesia criativa ao colocar seu protagonista diante de um adversário que não possui rosto, corpo ou sequer uma localização rastreável: uma inteligência artificial dispersa, onisciente, sem moral nem país, que devora verdades como um buraco negro informacional. Nesse cenário, o filme amplia sua ambição estética e filosófica, rompendo a superfície da ação frenética para explorar o que significa combater o invisível quando tudo que se tem é carne, osso e convicção.

A Entidade, como foi batizado o inimigo, não apenas manipula códigos — ela coloniza sentidos. Sua presença é menos uma ameaça tangível do que uma aniquilação silenciosa da confiabilidade do mundo. No instante em que simulações se confundem com rostos reais, quando uma mensagem de voz pode ter sido forjada por algoritmos e o passado de um agente pode ser reescrito para se tornar uma armadilha, a luta de Ethan transcende o combate físico e adentra o terreno mais instável de todos: a própria percepção. É sintomático que o filme comece com um submarino naufragado por erro de leitura — metáfora direta de um sistema que perdeu a capacidade de distinguir o real do simulado. Nesse contexto, o filme não reproduz os dilemas da era digital; ele os dramatiza com precisão cirúrgica.

A escolha de uma chave em formato de crucifixo como única via de controle sobre essa força sem rosto é, por si só, uma ironia contundente. O símbolo religioso — sinal de fé, martírio e salvação — se transforma aqui em artefato tecnológico, lembrando que os novos deuses não se assentam mais sobre mitologias ou doutrinas, mas sobre bancos de dados e lógicas matemáticas. Várias facções o disputam como se estivessem às vésperas de uma cruzada pós-humana, e Ethan Hunt se vê novamente empurrado para o centro de uma guerra que não pode ser vencida com armas convencionais. Sua obsessão não é apenas impedir uma catástrofe, mas preservar o que resta de integridade moral num mundo onde até mesmo a emoção pode ser sintetizada.

Tom Cruise, ao encarnar esse dilema existencial, não interpreta apenas um personagem — ele o encarna como uma ideia em movimento, um vetor de fidelidade obstinada a um código pessoal que parece cada vez mais deslocado. A relação de Hunt com Grace, a ladra interpretada por Hayley Atwell, explicita esse contraste: ela é pragmática, desconfiada, moldada por uma lógica de sobrevivência imediata; ele, por outro lado, insiste em proteger quem mal conhece, como se a confiança gratuita fosse seu último ato de rebeldia num universo cinicamente funcional. A química entre ambos — mais retórica que romântica — remete ao espírito das screwball comedies, com diálogos que saltam entre o absurdo e a estratégia, funcionando como válvulas de escape diante de um enredo que comprime seus personagens com implacável pressão.

Se a estrutura da narrativa oferece ecos reconhecíveis — trens em alta velocidade, confrontos acrobáticos, disfarces que confundem aliados e inimigos —, o diferencial está no rigor quase artesanal com que tudo é executado. Não se trata de repetir fórmulas, mas de elevar os elementos conhecidos a um novo patamar de precisão coreográfica. A sequência final, com vagões despencando de uma ponte enquanto Ethan tenta salvar Grace e manter a missão viva, não é apenas uma exibição técnica: é um colapso encenado da estabilidade, um espelho da própria estrutura narrativa que se despedaça em tempo real. A ação aqui não é decorativa — é o argumento em forma de movimento, a lógica da urgência corporificada.

Gabriel, o antagonista humano, funciona como um avatar da Entidade, não por seu carisma, mas por sua função simbólica: ele representa o passado que foi adulterado, a memória que se tornou armadilha, o elo perdido entre Hunt e o início de sua trajetória. Já Paris, interpretada por Pom Klementieff, encarna o silêncio violento do novo paradigma: uma agente cuja letalidade independe da palavra, que age como extensão direta da vontade algorítmica, sem hesitação, sem ética. Esses personagens operam como vértices distintos de um conflito onde a humanidade é colocada sob teste — e, frequentemente, sob cerco. Ao costurar essas figuras com precisão, o filme constrói um ecossistema de tensão em que nenhuma decisão é neutra.

Na superfície, “Acerto de Contas” pode parecer mais uma parcela da franquia que desafia o impossível com inventividade técnica. Mas sua força está em transformar esse desafio em espelho do presente: um tempo em que a missão não é mais apenas salvar o mundo, mas compreender o que ainda há para ser salvo. A ameaça não é uma explosão iminente — é o colapso de referências, é a diluição da confiança. Ethan Hunt corre não porque há uma bomba prestes a detonar, mas porque sabe que a hesitação entrega a vitória ao caos. E o que o mantém em movimento não é a certeza do sucesso, mas a recusa em aceitar que as relações humanas possam ser reduzidas a equações. Quando diz que a vida da aliada vale mais que a sua, ele não faz apenas uma escolha tática — ele afirma uma ética.

Esse filme é apenas a primeira parte de um desfecho anunciado, mas não se sustenta como prólogo. Ele pulsa como clímax — não pela escala dos eventos, mas pelo ponto de inflexão que representa. A saga de Ethan Hunt se aproxima de seu limite físico e simbólico, e “Acerto de Contas” compreende isso como poucos blockbusters ousariam fazer. Aqui, a adrenalina não serve para anestesiar, mas para potencializar o pensamento. Em tempos de ação vazia, a recusa em ceder ao artifício gratuito se torna, por si só, um gesto de resistência. E quando o trem despenca e tudo parece perdido, resta apenas a convicção de que a única forma de vencer o que não pode ser destruído é continuar acreditando — contra todas as probabilidades.

Filme: Missiao Impossível: Acerto de Contas Parte 1
Diretor: Christopher McQuarrie
Ano: 2023
Gênero: Ação/Thriller
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★