Mais que um filme, uma verdadeira aula de história — na Max Divulgação /Quiddity Films

Mais que um filme, uma verdadeira aula de história — na Max

Há histórias que não desapareceram com o tempo — apenas foram sufocadas até que o silêncio as tornasse convenientes. “Os Colonos”, longa dirigido por Felipe Gálvez Haberle, irrompe como um gesto de insubordinação à historiografia conivente, escavando as entranhas de um passado que nunca foi, de fato, enterrado. Mais do que uma representação de eventos, o filme estrutura-se como uma confrontação: não a respeito de episódios isolados, mas da lógica institucional que os sustentou — e que, disfarçadamente, persiste. Ao mirar o genocídio dos povos originários na Terra do Fogo, Gálvez não apenas ilumina uma ferida reprimida; ele denuncia os mecanismos que continuam a anestesiar nossa percepção sobre ela.

O ponto de partida é uma expedição encomendada por um latifundiário chileno: três homens partem rumo ao Atlântico sob o pretexto de mapear fronteiras e facilitar o avanço do gado. Mas a missão, logo se vê, não pretende abrir caminhos — pretende limpá-los. Os personagens centrais, escolhidos a dedo, não são meros capatazes: cada um simboliza uma engrenagem específica da máquina colonial. O ex-militar britânico encarna a expertise bélica a serviço da pilhagem; o mercenário norte-americano age como extensão brutal de um poder sem rosto; o mestiço — hábil atirador — representa a utilização dos próprios corpos racializados como ferramenta do extermínio, em nome de um pertencimento que nunca lhe será plenamente concedido. Essa composição não apenas ressignifica os arquétipos do western; ela os perverte, expondo suas raízes mais cruéis.

A geografia filmada por Simone D’Arcangelo impõe sua presença como elemento ativo da narrativa: o uso do formato 4:3 não reduz apenas o campo visual — estreita também as possibilidades de fuga, aprisiona personagens e espectadores numa moldura opressora. Em meio à vastidão gélida da Patagônia, a brutalidade não se anuncia com fanfarras — ela infiltra-se nos silêncios, nos gestos automáticos, nos olhares que não se desviam daquilo que fere. O massacre não é uma explosão dramática; é uma sequência de ações praticadas com uma naturalidade que revela o grau de institucionalização da barbárie.

Em dado momento, uma mudança abrupta de tempo — sete anos em um corte seco — substitui qualquer tentativa de desfecho narrativo por uma ampliação do horror. O homem que antes matava a mando agora discursa em nome da civilização. Não se trata de reviravolta, mas de coerência histórica: a transição da violência física para a retórica política é a metamorfose preferida dos projetos coloniais. É aí que o filme alcança sua camada mais incisiva. Ao recusar o conforto de arcos dramáticos tradicionais, “Os Colonos” desconstrói a lógica da expiação e força o espectador a encarar o fracasso da justiça histórica não como exceção, mas como norma.

A contundência do filme não está nas imagens explícitas — embora elas existam —, mas naquilo que é mantido fora de quadro. A escolha por não filmar determinadas atrocidades, optando por narrá-las a posteriori, impede qualquer estetização do horror e reafirma a tese central: o verdadeiro genocídio não foi apenas físico, mas simbólico — apagado dos registros, deslocado para os subterrâneos da memória, recodificado como progresso. A violência, nesse contexto, não terminou com os disparos, mas com as versões oficiais que passaram a narrá-los em tom menor, como acidentes ou fatalidades.

É nesse ponto que o filme rompe a barreira do tempo histórico e aproxima-se do presente. O que foi feito na Terra do Fogo — remoção, internato, assimilação forçada — encontra ecos nítidos em políticas contemporâneas de Estado. O Canadá, mencionado no próprio roteiro, institucionalizou por décadas a prática de sequestrar crianças indígenas e submetê-las a escolas de “reeducação”, em que a identidade era tratada como patologia. A distância entre rifle e farda escolar, entre massacre e catequese civilizatória, é ilusória. Em ambos os casos, trata-se de domesticar a diferença, apagando o que não serve à lógica de propriedade e controle.

A potência de “Os Colonos” vem, portanto, não de sua fidelidade histórica, mas de sua leitura crítica das estruturas que fabricam o esquecimento. O filme se inscreve numa linhagem de narrativas que recusam a catarse e optam pelo enfrentamento — não o enfrentamento heroico, mas aquele que desestabiliza, incomoda e exige posicionamento. O som do vento patagônico, os planos fechados que sufocam, o ritmo que se arrasta com peso — tudo contribui para um tipo de linguagem que não almeja entreter, mas convocar.

Gálvez Haberle não oferece respostas nem consolo. Seu cinema parte do princípio de que a verdade não está apenas nos documentos resgatados, mas nos silêncios que a oficialidade cultivou com zelo. Ao alternar a narrativa entre o campo e os salões do poder, ele articula uma acusação que vai além do relato factual: atinge os discursos que romantizam a ocupação, os monumentos erguidos sobre sangue e os pactos simbólicos que pretendem substituir justiça por performance.

Em sua recusa à condescendência, “Os Colonos” se torna um gesto pedagógico no sentido mais radical: o de ensinar pela dissonância, pela interrupção, pela negação do conforto. É um filme que interroga os alicerces do Estado moderno latino-americano não como produto da convivência, mas como herdeiro direto de uma engenharia de exclusão. Cada cena é uma prova contra o mito da reconciliação e um lembrete de que o passado, quando não enfrentado, não passa — ele se adapta.

Filme: Os Colonos
Diretor: Felipe Gálvez Haberle
Ano: 2023
Gênero: Crime/Drama/História
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★