Ganhador de 3 Oscars, filme com Brad Pitt e Cate Blanchett adaptado para os cinemas de um conto de Mark Twain, está na Max Divulgação / Paramount Pictures

Ganhador de 3 Oscars, filme com Brad Pitt e Cate Blanchett adaptado para os cinemas de um conto de Mark Twain, está na Max

Poucos projetos no cinema recente ousaram tratar o tempo com tamanha insolência quanto “O Curioso Caso de Benjamin Button”. Ao adaptar livremente um conto de Mark Twain — que sugeriu, com ironia afiada, que a vida seria mais lógica se começasse pela velhice e terminasse na infância — David Fincher tomou esse ponto de partida provocador e o transformou em algo muito mais ambicioso. Em vez de apenas inverter a cronologia biológica de um homem, ele organizou uma meditação extensa sobre a impermanência, os afetos e as fraturas inevitáveis da existência. A narrativa, que poderia facilmente ser engolida pela extravagância do absurdo, prefere caminhar no fio da contenção e da melancolia, resgatando o tom agridoce do texto original de Twain, mas redirecionando seu impulso cômico para uma atmosfera de estranhamento e contemplação.

Benjamin Button, interpretado por Brad Pitt, nasce com as marcas da decadência física, carregando no corpo frágil de um ancião a contradição de uma alma recém-chegada ao mundo. Abandonado à porta de um asilo, ele inicia sua jornada regressiva entre aqueles que avançam para o fim. É nesse território da despedida — onde a morte circula com naturalidade — que Benjamin conhece Daisy, a menina que, ao contrário dele, caminha na direção convencional da vida. Os dois se encontram em linhas opostas do mesmo gráfico existencial, e o filme constrói, a partir desse desencontro estrutural, uma narrativa de beleza errática, feita de instantes partilhados sob a constante ameaça da desintegração temporal.

Há uma ironia profunda no modo como Fincher estrutura essa história: a juventude, tradicionalmente celebrada como o auge da vitalidade, torna-se aqui o presságio da dissolução. O tempo não é pano de fundo, mas personagem principal — uma força muda e implacável, que separa antes mesmo de unir. A estética do filme — desde os efeitos digitais que acompanham a inversão física de Pitt até a fotografia granulada que alterna entre luz crepuscular e sombras úmidas do Sul norte-americano — amplifica a sensação de que tudo está em processo de deterioração, mesmo quando parece nascer.

A narrativa se desenrola como uma lembrança recuperada às pressas: Caroline lê o diário do pai, Benjamin, ao lado de Daisy, agora idosa, hospitalizada e à beira do furacão Katrina. Essa escolha de estrutura não apenas costura duas temporalidades — a externa, devastadora, e a interna, nostálgica — como também intensifica a ideia de que a memória é um abrigo precário diante do avanço inevitável da ruína. A cada página lida, o filme reconstrói a história do casal sem idealizações. Guerra, viagens, encontros fugidios e despedidas silenciosas — tudo é narrado como parte de um acervo afetivo vulnerável, onde nenhuma lembrança é permanente, e nenhuma presença está garantida.

Embora o enredo pareça pedir grandes explosões emocionais, Fincher opta por um tom quase asséptico. As paixões são tratadas com recato, os traumas com distância. É um drama contido, que recusa a manipulação do sentimento fácil. O espectador, diante disso, se vê desafiado: ou entra na cadência suave e dilatada da história, ou se perde nas expectativas de uma intensidade que jamais se impõe. Ao não exagerar na sentimentalidade, o filme alcança uma espécie de autenticidade inesperada, como se dissesse que a tragédia da vida não precisa ser gritada — basta ser lembrada.

Benjamin, ao longo de sua vida inversa, não se torna um herói ou mártir. Sua singularidade não o exime da solidão, tampouco o coloca acima dos dilemas comuns. Sua juventude terminal é atravessada por perdas, hesitações e um tipo de egoísmo silencioso que o leva, muitas vezes, a escolher a ausência como forma de cuidado. Essa ambivalência moral é uma das grandes virtudes do filme: Benjamin desperta empatia, mas não necessariamente simpatia. Ele observa mais do que age, recua mais do que insiste. Sua trajetória convida à contemplação, não à celebração.

Quando finalmente regride até o ponto de ser um bebê nos braços da mulher que amou — agora transformada em cuidadora —, o filme atinge um grau de desconforto raro. Não há redenção, apenas a constatação de que toda vida, por mais extraordinária que pareça, termina com a perda da autonomia, da linguagem e da memória. Ao inverter a flecha do tempo, o roteiro não cria um conto de fadas ao contrário, mas um lembrete incômodo de que todo nascimento é já um anúncio da morte, e toda história de amor carrega em si o germe do adeus.

A despeito de sua indicação ao Oscar de Melhor Filme — e da vitória de “Quem Quer Ser um Milionário?” naquele ano — “Benjamin Button” permanece como um exemplo singular de cinema reflexivo em larga escala. Sua duração estendida não é capricho, mas necessidade: só assim é possível captar o desgaste dos dias, o acúmulo de silêncios, o peso das escolhas feitas e não feitas. O filme não oferece respostas, nem pretende consolar. Ele se impõe como uma experiência demorada e rarefeita, que não se fecha em um sentido único, mas se abre ao que cada espectador é capaz de sentir diante da passagem inevitável do tempo.

Ao retomar a premissa provocadora de Mark Twain, Fincher não nos entrega uma fábula nem um tratado filosófico. O que constrói é um intervalo de suspensão: um convite para observar a vida como ela escorre — para trás, para frente, tanto faz — desde que se entenda que, em qualquer direção, o tempo nos leva sempre para longe de quem fomos. E talvez aí resida o impacto real do filme: não em tentar deter o tempo, mas em reconhecer que viver é aceitar sua marcha, mesmo quando ela caminha na direção contrária.

Filme: O Curioso Caso de Benjamin Button
Diretor: David Fincher
Ano: 2008
Gênero: Drama/Épico/Fantasia/Romance
Avaliação: 10/10 1 1
★★★★★★★★★★