George Clooney e Brad Pitt entregam um dos suspenses mais elegantes (e implacáveis) do cinema — e ele está no Prime Video Divulgação / Warner Bros.

George Clooney e Brad Pitt entregam um dos suspenses mais elegantes (e implacáveis) do cinema — e ele está no Prime Video

Existe uma elegância peculiar nos golpes que dispensam explicações. “Treze Homens e um Novo Segredo” não convida o espectador a montar o quebra-cabeça; oferece, em vez disso, a ilusão de que o mistério já foi solucionado, bastando assistir ao brilho da engrenagem girando em alta velocidade. O roteiro abdica da coerência cartesiana e se ancora numa estética de encantamento, onde a verossimilhança é tratada como distração. Steven Soderbergh compreende que o fascínio está na coreografia, não na mecânica. Os truques são menos sobre lógica e mais sobre estilo — como se a linguagem dos vigaristas, repleta de códigos e gírias crípticas, fosse mais convincente que qualquer manual de instruções. Dentro dessa lógica performática, o roteiro assume a função de um mestre de cerimônias: distribui os holofotes, dita o ritmo e convida o público a apostar no carisma como a única moeda realmente valiosa naquela mesa.

A estrutura do filme se move sob um código moral invertido, onde a malandragem é virtude desde que dirigida contra um alvo à altura da própria arrogância. E Willy Bank, interpretado por um Al Pacino deliberadamente saturado em bronzeamento artificial e vaidade, encarna esse antagonismo com uma exuberância que beira a paródia. Ele não apenas rompe contratos — viola uma espécie de pacto ancestral entre trapaceiros, enganando Reuben Tishkoff e empurrando-o à beira da morte. Diante disso, Danny Ocean e sua trupe se mobilizam não por dinheiro, mas por honra e vingança — e, talvez mais importante, pela oportunidade de ridicularizar publicamente um adversário que jamais aprendeu a perder com classe. O enredo se constrói como uma guerra silenciosa entre códigos não escritos: o respeito pela tradição versus a hybris de quem acredita estar acima das regras. Em vez de confrontos físicos, os embates ocorrem em sistemas de segurança hackeados, falhas calculadas e terremotos simulados, compondo uma narrativa onde a sabotagem vira forma de justiça.

Soderbergh, longe de simplesmente repetir fórmulas, investe na curadoria estética de cada elemento. As montagens em alta rotação, os planos sobrepostos, os figurinos de disfarce exagerado — tudo converge para criar um universo paralelo em que a duplicidade é regra. O elenco se move como se estivesse num balé informal, coreografado para parecer espontâneo. O que poderia parecer excesso — desde os nomes ridículos atribuídos aos planos (“Big Store Reverso”, “Irwin Allen”) até as reviravoltas que exigem escavadoras e greves operárias em fábricas mexicanas — se transforma em camada narrativa, multiplicando o prazer da experiência. Até os absurdos servem a um propósito: reforçar a autonomia lúdica de um mundo onde o impossível é ferramenta e não obstáculo. A comicidade não surge como alívio, mas como engrenagem complementar de um enredo que avança pela lógica da farsa bem calculada.

Essa engrenagem se apoia, sobretudo, na química invisível entre os protagonistas. Clooney e Pitt, como Ocean e Rusty, compõem uma dupla que dispensa faíscas explícitas: o calor que emanam é mais próximo de um braseiro antigo do que de um incêndio. Há entre eles uma cumplicidade silenciosa, tecida não em diálogos expositivos, mas em olhares e pausas medidas. Juntos, rememoram uma Vegas que deixou de existir — uma cidade que trocou o jazz esfumaçado por espetáculos de acrobatas suspensos e fachadas assépticas. E é justamente nesse confronto entre passado e presente que o filme ancora sua melancolia disfarçada. Ocean e seus comparsas já não são os mesmos, e sabem disso. Mas mesmo enquanto operam sua última grande jogada, não é o saque milionário que os move, e sim o ato de desafiar — com elegância e precisão — a vulgaridade dos novos reis do jogo.

A inserção de personagens secundários não apenas evita o colapso do enredo sob o peso de tantas presenças, como amplia o alcance simbólico da história. A executiva dominadora vivida por Ellen Barkin, cuja autoridade se sustenta em critérios corporais questionáveis, não é apenas uma vilã funcional: ela representa uma estrutura corporativa envernizada de empoderamento superficial. Sua queda — arquitetada por Linus Caldwell, finalmente livre do papel de aprendiz — carrega o sabor de uma crítica sutil ao poder que se sustenta em aparências. Terry Benedict, outrora nêmesis da equipe, retorna como cúmplice, diluindo os papéis morais rígidos e reafirmando que, naquele universo, alianças são tão voláteis quanto fichas lançadas ao vento. Até mesmo o sistema de segurança batizado de Greco, enfrentado por Roman Nagel, é uma sátira de sofisticação: a inteligência artificial é derrotada não por força bruta, mas por criatividade e timing — atributos humanos que o filme escolhe exaltar.

Se há uma recompensa a ser colhida após os truques, ela não é apenas a vitória sobre Bank, mas a persistência de um ideal de esperteza refinada. “Treze Homens e um Novo Segredo” opera como uma cartografia moral de um mundo onde a esperteza não é sinônimo de trapaça vil, mas de engenho teatral. O filme não quer que acreditemos em sua lógica — quer apenas que aceitemos suas regras por noventa minutos. E ao fazê-lo, nos convida a um pacto quase infantil: o de acreditar que, com planejamento impecável, senso de humor afiado e um paletó bem cortado, ainda é possível virar a mesa de um mundo viciado. Não se trata de iludir o espectador, mas de honrar a fantasia de que a astúcia elegante tem valor próprio — e, ao menos ali, pode vencer.

Filme: Treze Homens e um Novo Segredo
Diretor: Steven Soderbergh
Ano: 2007
Gênero: Crime/Thriller
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★