Poucas figuras da ficção atravessam gerações sem se dissolver em repetição ou perder a pertinência. Bridget Jones, no entanto, ocupa um território raro: aquele em que a personagem envelhece junto com seu público sem ser capturada por nostalgias recicladas. Em vez de servir como peça de reposição de si mesma, ela retorna em “Louca Pelo Garoto” como uma mulher marcada por silêncios e reconstruções, e não mais por calcinhas desajeitadas ou copos a mais de chardonnay. A graça não está mais nos tropeços escancarados, mas no peso invisível das ausências, sobretudo a de Mark Darcy, que paira com a gravidade dos vínculos que o tempo não apaga, mesmo quando a narrativa se recusa a explorá-lo com dramatismo fácil.
Renée Zellweger reaparece com uma contenção milimetricamente calculada, recusando-se tanto ao tom de farsa quanto à armadilha do empoderamento padronizado. Sua Bridget se desdobra em uma rotina errática, sem glamour e sem filtros, mas profundamente verossímil: improvisações domésticas, lapsos de organização, noites mal dormidas e silêncios que não pedem trilha sonora. Já não se trata de errar para divertir, mas de sobreviver às pequenas implosões cotidianas com o mínimo de lucidez e o máximo de sarcasmo possível. O humor não vem de ganchos roteirizados, mas do absurdo concreto da maternidade inesperada, dos constrangimentos profissionais em ambientes que já não oferecem ilusões e da libido vacilante que insiste em ressurgir, mesmo sob a névoa do luto e da culpa.
É nesse terreno instável que se inserem os novos encontros amorosos — não como substitutos, mas como dispositivos de revelação. Roxster, com seus vinte e poucos anos, não simboliza juventude perdida, mas atua como uma espécie de antítese vivente: ele pertence a um tempo que já não acolhe Bridget, mas cuja leveza a convida a revisitar desejos que haviam se fossilizado. Por outro lado, o enigmático Sr. Wallaker impõe outra lógica: sua rigidez atlética e introspecção sugerem uma relação menos espetaculosa, construída sem grandes gestos, mas com implicações mais complexas. Esses vínculos não orbitam em torno de uma conclusão romântica. Funcionam, antes, como vetores de reconfiguração interna, abrindo espaço para que ela negocie com o passado em vez de substituí-lo.
O retorno inesperado de Daniel Cleaver adiciona uma camada delicada à narrativa — não por nostalgia, mas por contrastes temporais. Hugh Grant encarna um Cleaver que já não seduz pelo cinismo, mas pela consciência tardia de sua própria obsolescência emocional. Ao lado de Bridget, ele não funciona mais como antagonista ou salvador, mas como interlocutor de uma história que ambos sabotaram e, por isso mesmo, conhecem em suas fissuras. Entre os dois, há diálogos que carregam mais do que ironia; revelam um pacto silencioso entre quem já se feriu demais para fingir leveza, mas ainda compartilha um idioma íntimo, feito de fracassos comuns e risos adiados. Essas trocas não apenas reequilibram o humor do filme, como impedem que os novos romances se tornem fórmulas de reparação emocional.
O mérito mais consistente do filme talvez esteja em não trair sua própria proposta: ele entende que Bridget não precisa ser reinventada para agradar uma nova geração, nem congelada em suas versões anteriores para satisfazer os nostálgicos. O roteiro, discreto em sua condução, evita viradas abruptas ou clímax artificiais. Escolhe, em vez disso, os tons menores, os gestos quase invisíveis, os momentos em que o humor nasce do incômodo e o afeto da imperfeição. A direção acompanha essa escolha com sobriedade, permitindo que os elementos simbólicos — os copos, os apelidos, as amizades — entrem em cena como notas de um diário íntimo, e não como souvenires requentados de capítulos anteriores.
Há, nessa Bridget, uma consciência aguda de que a vida adulta não se deixa embalar por canções otimistas nem pela lógica redentora dos finais fechados. Ela não tenta esconder as marcas da idade, nem reorganizar os traços da própria história para caber em novas narrativas de superação. O que se vê é uma personagem que tropeça menos fisicamente, mas mais afetivamente — e esse é o tipo de comédia que resiste ao tempo. Rir aqui é um gesto que não alivia, mas revela. É rir porque doeu, e porque ainda dói, mas continuar tentando — seja ao voltar ao mercado de trabalho por necessidade e não por vocação, seja ao aceitar a complexidade dos vínculos sem exigir garantias.
O filme, portanto, não entrega uma despedida embalada em laços, mas um deslocamento contínuo — como se dissesse que não há mais lugar fixo para Bridget, apenas uma disposição constante para não estagnar. E é esse impulso de movimento, mesmo quando frágil, que sustenta a vitalidade dessa personagem improvável. Ela já não precisa de escândalos para ser interessante, nem de finais felizes para justificar sua existência. Sua relevância está justamente em oferecer um espelho imperfeito e, por isso mesmo, humano. Não se trata de concluir uma história, mas de entender que certas figuras continuam ecoando porque, apesar de tudo, ainda tentam — e às vezes, tentando, tropeçam em algo parecido com a graça.
★★★★★★★★★★