Há histórias que optam por escancarar suas dores, transformando a adversidade em espetáculo dramático. “Sob as Estrelas” escolhe um caminho oposto — e, justamente por isso, mais exigente. Em vez de convocar o espectador ao pranto ou submeter seu protagonista a uma sucessão explícita de tormentos, o filme aposta em uma contenção meticulosa, que não nega o peso da trajetória retratada, mas o realoca com precisão no pano de fundo da narrativa. Yazid, personagem central, é menos um sobrevivente em exibição e mais uma figura que escapa da caricatura pela via do silêncio. A sua história não grita; ela pulsa em ritmos sutis, muitas vezes imperceptíveis, mas profundamente carregados de intenção.
A recusa em dramatizar a dor não decorre de frieza ou distanciamento, mas de uma escolha estética e ética clara: deslocar o foco do sofrimento para a construção da vontade. A adversidade, embora presente, não é o núcleo em torno do qual tudo gravita, mas o terreno pedregoso onde a determinação se arma de ferramentas improváveis — no caso, a confeitaria. O filme não está interessado em celebrar o sofrimento como rito de passagem, mas sim em examinar como gestos repetitivos, aparentemente banais, podem conter uma forma refinada de resistência. Ao fazer isso, desloca o olhar do que foi imposto ao protagonista para aquilo que ele decidiu construir a partir do que não pôde escolher.
Esse deslocamento se reflete na linguagem visual, que ora beira o ornamental, ora se aproxima do ritual. Há momentos em que a câmera parece reverenciar a mise en place como se fosse um cerimonial, conferindo solenidade ao trivial. Cortar frutas, bater cremes ou decorar bolos adquire, em certos enquadramentos, uma grandiosidade quase absurda, que beira a estilização publicitária. À primeira vista, esse tratamento pode soar artificial, até mesmo excessivo. No entanto, há ali um movimento simbólico relevante: elevar o gesto técnico à condição de afirmação existencial. Em um mundo que reiteradamente minimiza histórias como a de Yazid, transformar um chantili em ato coreografado é uma forma de resistência estética — um grito silencioso que reivindica importância no detalhe.
Ainda assim, o filme caminha numa corda bamba delicada. Em vários momentos, a estética se sobrepõe à intimidade. Há lacunas no aprofundamento subjetivo do personagem, que, ao ser tratado como uma espécie de arquétipo — o persistente, o incansável, o disciplinado —, perde um pouco da densidade que poderia torná-lo mais próximo, mais humano. Yazid é retratado com uma serenidade quase inabalável, e isso, embora coerente com a proposta do filme, reduz as arestas emocionais que tornam um personagem verdadeiramente tridimensional. O que se vê é alguém cuja interioridade permanece sempre à meia-luz, como se houvesse uma decisão deliberada de não atravessar a superfície.
Essa escolha narrativa, no entanto, não é desprovida de riscos. Ao preservar a dignidade do protagonista por meio da contenção, o filme corre o perigo de esvaziar a complexidade dos conflitos internos que moldam qualquer trajetória real. Marwan Riadh, que dá vida a Yazid, oferece uma performance marcada por uma contenção expressiva que sugere mais do que revela. Seus silêncios falam, mas não o suficiente para que o espectador compreenda plenamente o que pulsa sob a superfície. É um desempenho competente, mas condicionado por uma moldura narrativa que prefere aludir a mergulhar. Nesse sentido, o personagem parece mais construído para inspirar do que para ser compreendido — e essa diferença, embora sutil, altera a natureza do vínculo possível com quem assiste.
A força do filme reside, portanto, não na intensidade emocional de suas cenas, mas na coerência com que constrói uma ideia: a de que a superação não precisa vir acompanhada de histrionismo, e que há um tipo de triunfo que se realiza em silêncio, longe dos refletores. A montagem alterna diferentes fases da vida de Yazid com uma fluidez que evita rupturas abruptas, apostando em uma linha narrativa que sugere continuidade em vez de clímax. Esse movimento reforça a sensação de que não há um momento decisivo, um ponto de virada mágico, mas sim um acúmulo lento de escolhas e gestos que constroem, tijolo por tijolo, uma nova possibilidade de existência.
A confeitaria, nesse contexto, deixa de ser mero ofício para se transformar em metáfora estruturante. Cada prato preparado, cada camada de textura e sabor, alude a uma trajetória marcada por paciência, precisão e desejo de permanência. O filme encontra suas melhores passagens quando explora essa correspondência entre a arte culinária e o esforço existencial: a cozinha como espaço de reinvenção, como refúgio e linguagem, mas também como campo de batalha simbólica, onde se enfrenta o preconceito, a invisibilidade e a ideia de destino.
Embora não escape de deslizes ocasionais — especialmente no uso de artifícios visuais que, em alguns trechos, obscurecem mais do que iluminam —, “Sob as Estrelas” mantém a integridade de sua proposta. Ao abdicar da tentação de fazer da dor um espetáculo e optar por uma narrativa que valoriza a persistência silenciosa, o filme traça uma linha de resistência que não grita, mas permanece. Não é uma história que se impõe, mas uma que se oferece: comedido, o longa permite que o espectador complete os espaços com a própria sensibilidade.
Se, ao final, Yazid ainda parece envolto em certa névoa, talvez seja porque o filme não pretende desvendá-lo por completo. Ele não é um herói de discurso pronto, tampouco um personagem desenhado para arrancar lágrimas. É, antes, um símbolo — não da perfeição, mas da continuidade. Alguém que, apesar das fissuras, escolheu seguir. E talvez resida aí, nesse gesto modesto e insistente, a verdadeira força de sua jornada.
★★★★★★★★★★