Há mães que ensinam com palavras, outras com o silêncio. Rachel Flax educa suas filhas pela velocidade — muda de cidade, troca de homem, reinventa rotinas — como quem tenta driblar o tempo e a expectativa alheia. Em “Minha Mãe é uma Sereia”, o instinto de sobrevivência assume a forma de uma mulher que ama como sabe: sem meias medidas, sem promessas, sem mapas. Interpretada por Cher em sua performance mais instintiva, Rachel é menos uma figura materna tradicional do que um vetor de movimento. Tudo nela vibra — o figurino chamativo, o humor afiado, o medo mal disfarçado de permanecer. E é nesse movimento constante que o filme encontra sua força: não na estabilidade, mas na tensão entre permanência e fuga.
A narrativa, situada em 1963, poderia facilmente recair na estética de um cartão-postal nostálgico. Mas o diretor Richard Benjamin — que assumiu o projeto após a recusa de outros nomes — prefere dar ao filme uma textura mais crua, ainda que suave, apostando em pequenos gestos para desenhar grandes dilemas. A trama gira em torno de Charlotte (Winona Ryder), adolescente dilacerada entre o desejo de se santificar e os impulsos incontroláveis da juventude. Charlotte reza compulsivamente, imagina martírios, questiona sua origem judaica enquanto se devota ao catolicismo com fervor cênico. É como se quisesse purificar-se da própria mãe, tentando construir uma identidade que não seja herança, mas ruptura. A questão é que, no processo, ela se descobre não como oposto de Rachel, mas como seu espelho em formação.
O mérito do filme está em entender que amadurecer é, muitas vezes, aprender a conviver com as contradições — e não resolvê-las. A maternidade, nesse contexto, não aparece como um sagrado sacrífico nem como um fardo silencioso, mas como uma dança desajeitada entre proteção e liberdade. Rachel não é exemplo, tampouco vilã: é falha, intuitiva, magnética e, por isso mesmo, profundamente humana. Seu amor não se expressa em promessas ou conselhos, mas em sua recusa a ser domesticada. Ela protege as filhas à sua maneira — que é também uma forma de proteger a si mesma.
Charlotte, por sua vez, vive um conflito que ultrapassa o drama adolescente típico. Sua obsessão religiosa funciona como válvula de escape para uma sexualidade nascente, para os medos que não encontra palavras e para uma culpa que parece herdada. O ônibus escolar que ela observa religiosamente, dirigido por Joseph (Michael Schoeffling), torna-se metáfora de um desejo que ela ainda não sabe nomear. E é nessa hesitação — entre fé e carne, entre mãe e filha, entre rigidez moral e impulso vital — que o filme encontra seu eixo emocional mais potente.
A presença de Christina Ricci, em seu primeiro papel no cinema, funciona como contrapeso à densidade emocional do enredo. Sua Kate, irmã caçula de Charlotte, exala uma espontaneidade que é puro presente — sem passado, sem angústias futuras. A leveza de suas cenas, muitas vezes centradas em sua paixão por natação, serve como válvula de respiro e como lembrete de que há infâncias que sobrevivem mesmo em contextos instáveis. Já Bob Hoskins, como Lou, é o contraponto mais sereno do filme. Seu personagem não tenta domesticar Rachel; apenas oferece a ela o que poucos se atrevem: constância sem exigência. Seu afeto não impõe condições, mas também não se apaga. Ele está ali, paciente, como quem sabe que o amor, às vezes, precisa apenas de tempo para ser aceito.
O filme evita as armadilhas do sentimentalismo fácil. A trilha sonora com clássicos dos anos 60 não serve como enfeite nostálgico, mas como comentário emocional — traduz o que os personagens não dizem. O figurino de Rachel não é apenas extravagância: é armadura, performance, defesa. A direção de arte, por sua vez, constrói um cenário costeiro que reflete o espírito inquieto dos personagens — com suas marés, suas despedidas e suas pequenas epifanias. É um universo que pulsa em paralelo ao drama íntimo das protagonistas, reforçando a ideia de que o ambiente também educa, também marca.
Diferentemente de outras produções sobre relações familiares, “Minha Mãe é uma Sereia” recusa lições de moral. Não há um clímax que redima, uma virada que explique tudo ou uma catarse final. O que existe é o cotidiano: o conflito que não se resolve, o amor que não se nomeia, o afeto que persiste mesmo quando tudo o mais falha. O filme propõe uma ética da imperfeição, reconhecendo que os vínculos mais duradouros não são necessariamente os mais harmônicos, mas os que sobrevivem aos choques, às ausências, às falhas.
Talvez por isso o longa seja considerado um “clássico pessoal” por tantos: ele fala de vínculos sem amarras, de afetos que escapam da lógica convencional. Quem já teve uma figura como Rachel na vida — intensa, errática, mas indiscutivelmente presente — entende o que o filme comunica sem precisar explicar. Quem já foi Charlotte, tentando desesperadamente se afastar do que teme repetir, também se vê ali, em silêncio. E quem já foi Lou — insistente, discreto, esperançoso — entende o valor de permanecer onde tantos desistem.
Não há pretensão de grandiosidade no filme, e talvez seja justamente isso que o torna tão marcante. Sua força não está nas viradas de roteiro, mas nos espaços entre as palavras. Ele é feito de cenas que poderiam passar despercebidas: um jantar interrompido, uma risada fora de hora, um olhar desviado. Mas é nesses momentos — quase invisíveis — que o espectador é surpreendido pela verdade emocional que o filme carrega. E, ao final, o que fica não é uma história, mas uma sensação. A de que crescer, amar e errar são experiências inseparáveis. E que há beleza, sim, nos lares instáveis — desde que sejam habitados com afeto sincero.
★★★★★★★★★★