Uma obra-prima devastadora, premiada com dois Oscars — e que muita gente não vai ter coragem de assistir até o fim, na Netflix Divulgação / Sony Pictures Releasing

Uma obra-prima devastadora, premiada com dois Oscars — e que muita gente não vai ter coragem de assistir até o fim, na Netflix

Um filme que arrisca recusar qualquer gesto de consolo e nega a arquitetura tradicional do luto só pode ser interpretado como um experimento radical de honestidade emocional. “Manchester à Beira-Mar”, de Kenneth Lonergan, não tenta oferecer alívio nem redenção — ele investiga, em silêncio e ruína, os mecanismos íntimos da dor que se perpetua. Seu protagonista, Lee Chandler, vivido por Casey Affleck em um desempenho de rara contenção explosiva, não é um homem tentando superar uma tragédia, mas alguém que renunciou à própria possibilidade de reorganização interna. Ele vive imerso na rigidez do cotidiano: conserta pias, desentope ralos, briga em bares sem propósito. Cada gesto é uma tentativa de anestesiar aquilo que não se pode apagar. E, quando a morte do irmão o obriga a retornar à cidade onde tudo desmoronou, o roteiro recusa o conforto de uma narrativa de recomeço. Ao invés disso, oferece um confronto com o irrecuperável — como se o filme dissesse, com frieza cirúrgica, que há dores cuja permanência é a única forma de justiça possível.

A inteligência da estrutura narrativa repousa em sua recusa à linearidade emocional. Ao costurar o presente com flashbacks que irrompem como espectros luminosos em meio ao frio opaco do cotidiano, Lonergan revela o que foi perdido sem precisar explicar por que tudo ruiu. Vemos o passado como um campo minado de alegria inocente: Lee era pai, marido, irmão, um homem ainda inteiro. E é nesse contraste que reside a verdadeira devastação. A sequência em que a tragédia central finalmente se desvela não busca impacto visual nem clímax lacrimoso — ao contrário, ela dilacera justamente por sua recusa em dramatizar o indizível. A câmera se fixa no que está em volta: rostos anônimos, reações deslocadas, o caos periférico da vida que insiste em continuar mesmo quando tudo parece ter parado. É nessa fricção entre o que se cala e o que se expõe que o filme atinge uma densidade rara, tornando evidente que a maior violência não é o que acontece, mas o que permanece sem nome depois.

Dentro dessa atmosfera emocionalmente estagnada, o encontro entre Lee e o sobrinho adolescente, Patrick, funciona não como via de salvação, mas como laboratório de imperfeições compartilhadas. Lucas Hedges constrói um Patrick multifacetado — um jovem que fala demais, deseja demais, e que, apesar da carência, é mais funcional que o adulto encarregado de guiá-lo. O humor que se infiltra nesses diálogos truncados e nessas situações constrangedoras não alivia a tensão: ele a amplifica, evidenciando o abismo que separa gerações, linguagens e formas de sofrimento. Quando Lee, atônito, tenta consolar Patrick após uma crise de pânico causada por um freezer, seu comentário desastrado sobre frangos congelados revela mais sobre sua inabilidade emocional do que qualquer monólogo dramático seria capaz. Não há conserto, apenas a tentativa de sustentar um mínimo de convivência entre ruínas. E talvez o mérito maior de Lonergan seja justamente esse: fazer da falha de comunicação um elemento estruturante da narrativa — como se a ausência de entendimento fosse a mais autêntica forma de afeto possível.

Não se trata aqui de uma trajetória de ascensão moral nem de um arco dramático redentor. O que Lonergan constrói é uma geografia interna onde a dor se acomoda como parte da topografia humana, e não como um obstáculo a ser removido. A cidade que dá nome ao filme não é um cenário: é um personagem ausente que impõe presença. Não há praia em “Manchester à Beira-Mar”, apenas barcos, gelo e sal — elementos que não acolhem, mas cobram. A fotografia pálida de Jody Lee Lipes e a trilha contida de Lesley Barber reforçam essa sensação de invernia emocional. Nesse espaço hostil, o retorno de Lee adquire contornos quase mitológicos: não é uma volta para casa, mas uma travessia rumo ao núcleo do trauma. A decisão de Lonergan de não dramatizar essa jornada, mas de narrá-la com brutal e afetuosa neutralidade, transforma o filme em algo ainda mais incisivo: uma recusa consciente às expectativas narrativas e emocionais convencionais.

Ao optar pela não catarse, o filme desafia a lógica dos prêmios que exige performances espetaculares e clímax redentores. E, paradoxalmente, é dessa recusa que brota a grandiosidade do desempenho de Affleck, que parece se dissolver dentro do personagem em vez de usá-lo como vitrine. Seu Lee Chandler não tem grandes frases nem discursos transformadores. Ele apenas existe — de forma desajustada, torta, fragmentada. E é justamente isso que o torna tão inesquecível. A presença de Michelle Williams em cena é breve, mas essencial: em especial na sequência em que tenta reatar, em vão, um fio de humanidade com o ex-marido. A cena não tem explosão nem reconciliação; tem silêncio, falha, desistência. E esse gesto de não avançar — de aceitar que algumas distâncias não se percorrem — é talvez o maior gesto de amor que o filme permite. Não um amor que salva, mas um que reconhece sua própria impotência.

“Manchester à Beira-Mar” é, portanto, um tratado sobre o insuportável. Não o insuportável do sofrimento explícito, mas o da permanência da dor quando já não há mais nada a ser feito. Ao final, Lee não está curado, Patrick não está transformado, e o mundo continua indiferente. A única mudança possível reside na aceitação mútua dessa impossibilidade de mudança. Poucos filmes ousam tanto na sua recusa ao conforto — e nenhum o faz com tanta precisão, humanidade e coragem narrativa. O impacto não vem de cenas grandiosas, mas da forma como a melancolia se infiltra em cada silêncio, em cada gesto interrompido, em cada tentativa falha de conexão. É um filme que entende que nem todo trauma encontra tradução, e que há sobrevivências que se constroem não com superação, mas com a dignidade de continuar respirando mesmo quando o ar parece não bastar.

Filme: Manchester à Beira-Mar
Diretor: Kenneth Lonergan
Ano: 2016
Gênero: Drama
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★