Certos destinos parecem ter sido condenados à indigência emocional desde a infância: são vidas nutridas por sobras, onde os afetos não florescem, apenas resistem em estado de negação. Nessas existências, o que se chama amor tem a textura do que já foi quebrado, colado às pressas com a cola grossa da conveniência social. Mas há momentos em que o véu do faz de conta se rasga com brutalidade, exigindo do indivíduo uma posição radical: nomear a violência, mesmo que isso signifique enfrentar o silêncio covarde de um tempo inteiro. E quando o que está em jogo é o valor da palavra de uma mulher em meio ao patriarcado medieval, como no caso de Marguerite de Carrouges, a fala não é só resistência — é combate. Ridley Scott reconhece essa encruzilhada como o núcleo ético de sua narrativa e a transforma em arena simbólica de uma França arcaica onde honra, amizade e brutalidade masculina se cruzam como lâminas num campo de batalha.
Mais do que apenas reviver uma tragédia medieval, o filme se ergue como uma alegoria sobre a arquitetura do esquecimento. Unamuno, ao dizer que a vida é feita de escolhas sobre o que lembrar, também nos alerta sobre o pacto seletivo da memória coletiva. O episódio que envolve Marguerite, sua acusação de estupro e o julgamento por combate não é apenas um resgate histórico: é uma denúncia dos silêncios que se perpetuam através dos séculos, sobretudo quando o poder decide quem pode ser ouvido. O roteiro de Affleck, Damon e Holofcener — baseado na obra de Eric Jager — não tem pressa em julgar, mas constrói com precisão as ambiguidades morais de uma sociedade onde a justiça se confundia com espetáculo, e a mulher, mesmo nobre, era mero detalhe no palco dos homens.
A estrutura fragmentada da narrativa — dividida entre as versões de Jean de Carrouges, Jacques Le Gris e, por fim, Marguerite — é mais do que um recurso estilístico: é uma desmontagem do privilégio masculino como lente dominante da história. O olhar de cada homem tenta reivindicar sua própria “verdade”, mas é apenas quando a voz de Marguerite ganha corpo que a dimensão real do horror se impõe. E essa construção não se dá pela retórica da vitimização, mas pela coragem de existir diante do descrédito. Scott não a exalta como heroína, tampouco a idealiza: permite que ela ocupe um lugar onde o medo e a força não se excluem, onde o ato de falar é também um ato de sobrevivência.
Adam Driver e Matt Damon assumem seus personagens com a intensidade necessária para sustentar o embate ideológico que permeia o conflito, mas é Jodie Comer quem dá espessura humana à narrativa. Sua atuação escapa da obviedade e da fragilidade estereotipada; em vez disso, constrói uma figura que, embora cercada de limitações sociais, encontra na clareza de sua dor um poder que nem o duelo final poderia apagar. A trajetória de Marguerite não é de afirmação, mas de exposição: ao se recusar a silenciar, ela transforma sua história em denúncia, não apenas contra um homem, mas contra um sistema inteiro que insiste em medir a verdade com régua masculina.
Ridley Scott, longe de apenas recriar um cenário histórico, investe na atualidade de seu tema. Em tempos em que narrativas femininas ainda são disputadas, distorcidas ou silenciadas, a escolha por uma abordagem polifônica e ética é tanto uma provocação quanto uma afirmação de responsabilidade artística. O que está em jogo não é apenas a reconstituição de um evento, mas o enfrentamento daquilo que resiste ao esquecimento: o corpo feminino como território de disputa e a fala da mulher como ameaça à estabilidade de um poder ancestral. Assim, o filme não fecha feridas, mas escancara cicatrizes que continuam abertas — não em pergaminhos medievais, mas no cotidiano de uma sociedade que ainda hesita em ouvir.
O duelo de espadas termina, mas o outro, mais cruel e persistente, prossegue: o das interpretações, o das versões, o da memória. Nesse embate, Marguerite vence ao recusar a posição que lhe foi designada, ao reverter o jogo que deveria calá-la. Não há apoteose nem justiça plena — mas há um gesto, quase silencioso, de insubmissão. E, diante dele, o tempo precisa se curvar.
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