Ignorado pelo público e pela crítica, antifaroeste com Liam Neeson é o melhor filme do Prime Video neste fim de semana

Ignorado pelo público e pela crítica, antifaroeste com Liam Neeson é o melhor filme do Prime Video neste fim de semana

Não há tiro que anuncie o verdadeiro colapso de uma moral corroída. Ele já aconteceu antes do primeiro disparo, no silêncio acumulado entre culpas não ditas e pactos prolongados demais. “Na Terra de Santos e Pecadores” não se dedica a contar uma história de redenção, mas a caminhar pelas sobras do que restou após a desistência coletiva da inocência. A Irlanda do Norte de Robert Lorenz não é pano de fundo: é organismo doente que respira violência com a naturalidade de quem já perdeu o olfato. A câmera não contempla a paisagem com reverência, mas a revira como se procurasse vestígios de humanidade em uma terra que aprendeu a viver sob o som abafado da brutalidade. Liam Neeson, por sua vez, abdica de qualquer heroísmo possível para entregar um personagem cuja presença denuncia o peso de cada vida retirada — não como justiceiro, mas como ruína ambulante.

Finbar Murphy não age por impulso nem por devoção: seu ritual de matar tornou-se um ofício exaurido, estéril, embalado por gestos tão meticulosos quanto inúteis. Enterrar a vítima antes do tiro, plantar árvores como lápides vivas, não são gestos de clemência — são exaustões em forma de gesto, maneiras de preservar uma lógica interna num mundo onde ética virou formalidade estética. Não há salvação possível, tampouco julgamento válido: há apenas uma engrenagem que gira sem prazer, onde culpa e hábito se confundem. Quando Doireann McCann entra em cena, o filme não propõe um antagonismo clássico, mas uma disputa simbólica entre duas formas de degeneração: o cansaço daquele que matou demais e o fervor daquela que ainda acredita que matar é necessário. Entre os dois, não há campo neutro — apenas cinzas de ideologias abandonadas.

O enredo recusa o espetáculo e se ancora na tensão subterrânea que emerge da convivência forçada entre carrascos de diferentes gerações. Donegal, o vilarejo coberto pela umidade atlântica, funciona como um purgatório com feições de lar: tudo ali soa provisório, como se até as casas estivessem à espera de demolição. A tradição do western não é apenas invocada, mas ressignificada: os duelos dão lugar à desconfiança contida, as paisagens abertas ao enclausuramento psicológico. A violência não está na ação, mas na hesitação; não no sangue derramado, mas nos olhares que já perderam a capacidade de se surpreender com o horror. A amizade com o policial, o vínculo silencioso com o empregador, e os encontros involuntários com o grupo revolucionário formam uma rede de ligações corroídas pelo tempo, onde toda proximidade carrega o espectro da traição.

Ao evitar os discursos diretos sobre os “Troubles”, o filme abdica de uma contextualização explícita — e nisso há tanto ganho quanto perda. Por um lado, evita-se o didatismo que esteriliza o cinema político; por outro, abdica-se também da chance de tensionar mais profundamente questões que atravessam fé, nacionalismo, responsabilidade civil. O ataque inicial que mata crianças não é tratado como tragédia excepcional, mas como parte de uma rotina manchada — e esse tratamento dilui o choque para dar lugar ao reconhecimento. Quando Doireann pede desculpas à mãe da vítima, o faz sem hesitação, com a naturalidade perversa de quem não reconhece mais o absurdo em seus próprios gestos. Essa secura, no entanto, é um dos trunfos narrativos: escancara a erosão completa da empatia sem precisar declarar isso.

O peso simbólico dos personagens depende menos do que fazem e mais do que não conseguem mais fingir. Neeson trabalha com silêncios prolongados, com pausas que reverberam como confissões mudas. Há nele um cansaço que não se comunica por palavras, mas pelo abandono da postura rígida que marcou tantos de seus papéis anteriores. Condon, em contrapartida, encarna a vilania como se estivesse convicta de representar o bem — e é dessa dissonância que nasce seu terror. Ela não grita, não vocifera; apenas insiste, com lógica impecável, em percorrer um caminho que qualquer outra personagem já teria questionado. Ao redor deles, os coadjuvantes funcionam como ecos de uma comunidade emocionalmente isolada, onde cada vínculo social parece sustentado por uma desconfiança educada.

Ainda que alguns excessos formais denunciem a hesitação do diretor — os voos de drone que buscam uma grandiosidade talvez desnecessária, ou diálogos que se estendem além do impacto —, a contenção narrativa é o traço dominante. Há um incômodo constante que não busca alívio: é como se o filme se recusasse a oferecer qualquer válvula de escape, insistindo em permanecer na superfície áspera da ambiguidade. Não há redenção possível, nem punição que satisfaça. Tudo se dissolve em continuidade: o assassinato como hábito, a justiça como encenação, a paisagem como testemunha cansada. Quando o personagem cogita cultivar um jardim, não há ali esperança, apenas a imagem de um homem que, tendo perdido a fé no mundo, decide ao menos fingir que algo pode brotar. Essa ilusão silenciosa — e não qualquer gesto dramático — é o que mantém o filme vibrando por dentro, mesmo após o fim.

Filme: Na Terra de Santos e Pecadores
Diretor: Robert Lorenz
Ano: 2023
Gênero: Ação/Faroeste/Thriller
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★