A proposta de “A Lista da Minha Vida” pode parecer, à primeira vista, uma reencarnação fantasiosa de lições de autoajuda com verniz dramático. Mas há um aspecto mais inquietante em sua essência: o uso da morte como instrumento de remodelagem, não como lamento. A decisão de uma mãe em guiar os passos da filha a partir de instruções póstumas não aponta para um sentimentalismo tardio, e sim para um experimento emocional radical, no qual o luto se confunde com a tentativa de fabricar uma identidade que nunca chegou a se firmar. A protagonista, Alex, não está em crise apenas por estar perdida — ela também está anestesiada. E é essa anestesia emocional, esse embotamento existencial das promessas que não se cumpriram, que sua mãe tenta reverter à força, mesmo ausente, mesmo morta. O curioso é que a dor, que deveria ser o estopim da introspecção, acaba funcionando aqui como desculpa para uma dramaturgia que hesita entre a provocação e a conveniência.
O filme gira em torno de um paradoxo difícil de ignorar: para escapar de uma vida inautêntica, Alex precisa obedecer a comandos alheios. O roteiro, adaptado por Adam Brooks a partir do livro de Lori Nelson Spielman, abraça essa contradição com certo entusiasmo, mas tropeça ao tentar equilibrar a gravidade das questões com a leveza de uma comédia romântica tradicional. É como se quisesse transformar uma experiência de reconstrução subjetiva em um percurso ilustrado por bilhetes coloridos e testes de BuzzFeed. Há momentos em que o filme parece genuinamente interessado em provocar uma desconstrução da personagem, mas logo cede à tentação de suavizar o conflito com piadas previsíveis, triângulos amorosos insossos e figuras secundárias desprovidas de qualquer complexidade. A jornada de Alex é recheada de tarefas que vão do trivial ao inusitado — tocar piano, reler clássicos, reencontrar antigos afetos —, mas raramente essas tarefas servem de trampolim para verdadeiros abismos internos. O que se vê é uma progressão mais estética do que emocional.
Mesmo assim, “A Lista da Minha Vida” não pode ser reduzido a um desfile de equívocos narrativos. O filme acerta ao tensionar os limites da maternidade como gesto de controle e proteção. Elizabeth, interpretada por Connie Britton com uma ambiguidade desconcertante, não busca perpetuar sua presença como figura adorável ou mártir. Seu plano envolve manipulação consciente, revestida de afeto estratégico. Ao exigir que a filha cumpra metas da adolescência para receber sua parte da herança, ela não apenas impõe condições a um luto que deveria ser livre, como também desafia o modo como encaramos a liberdade dos que ficam. Isso levanta uma questão rara em narrativas desse tipo: até que ponto um gesto de amor pode ser coercitivo? E mais: que tipo de vínculo sobrevive quando a única maneira de demonstrá-lo é testando os limites éticos da ausência? O filme até flerta com essas perguntas, mas parece não ter coragem suficiente para sustentá-las até o fim.
A atuação de Sofia Carson oscila entre a contenção e a caricatura, refletindo bem o desequilíbrio tonal do longa. Sua Alex é uma mulher marcada pela apatia, refém de escolhas alheias, mas também conivente com sua própria estagnação. Sua resistência às tarefas impostas pela mãe nunca é suficientemente explorada em profundidade, o que dilui a potência simbólica da lista em uma sucessão de episódios simpáticos, porém banais. Ainda assim, há lampejos de tensão real, sobretudo nas interações com o advogado Bradley, vivido com discrição e inteligência por Kyle Allen. É nesse núcleo que o filme parece querer dizer algo mais sério, mais perturbador: a reinvenção pode ser menos libertadora do que desconcertante, especialmente quando decorre de um pacto que o indivíduo não escolheu assinar. A leveza proposital de algumas cenas — como as viagens de carro, as conversas cruzadas, os encontros casuais — funciona como um verniz que tenta esconder o peso de uma transformação que, no fundo, nunca se completa.
Por trás do verniz confortável de autodescoberta, o filme parece aludir a algo mais incômodo: a possibilidade de que nem toda mudança decorra de um despertar genuíno. Em muitos momentos, Alex parece apenas cumprir um roteiro já editado, como se estivesse vivendo um teatro para garantir seu quinhão material. Essa suspeita nunca é totalmente negada, e talvez resida aí o único traço de coragem do filme — a ambiguidade não resolvida entre o que se deseja de fato e o que se aceita fazer por conveniência emocional ou financeira. Brooks ensaia uma crítica à banalização das jornadas transformadoras, mas recua sempre que o desconforto ameaça se impor. A câmera prefere os sorrisos cúmplices às fissuras autênticas, e a trilha sonora costura emoção onde a dramaturgia não alcança. Ainda assim, é difícil ignorar a sensação de que algo importante foi apenas roçado, mas jamais enfrentado.
O que fica, ao fim, não é a imagem de uma mulher transformada, mas de uma personagem contornada por vontades alheias, orbitando os desejos de uma mãe que queria tudo, menos desaparecer. Em vez de contar a história de alguém que rompe com sua versão anterior para se reconstruir, o filme narra o percurso de quem foi, pouco a pouco, substituindo sua paralisia por performances de liberdade. Se isso é redenção ou apenas um novo tipo de conformismo, a narrativa não se compromete em responder. Talvez porque, em última instância, “A Lista da Minha Vida” seja menos sobre recomeços do que sobre a dificuldade de encenar um — e sobre o que se perde no caminho, quando o roteiro da própria vida é escrito por quem já partiu.
★★★★★★★★★★