Comédia romântica que vai fazer os fãs de Jane Austen saírem de suas bibliotecas e sentarem-se diante de uma televisão, na Netflix Giles Keyte / Sony Pictures Classics

Comédia romântica que vai fazer os fãs de Jane Austen saírem de suas bibliotecas e sentarem-se diante de uma televisão, na Netflix

Em um tempo em que a cultura pop se alimenta de nostalgias em série e adaptações previsíveis, “Austenland” opta por um caminho que poucos têm a ousadia de trilhar: zombar carinhosamente do próprio objeto de adoração. Disfarçada de comédia leve, a produção dirigida por Jerusha Hess se revela, sob uma segunda camada, como uma sátira afinada e surpreendentemente lúcida sobre o fetiche coletivo pela fantasia romântica. Mais do que rir de suas personagens, o filme convida o público a rir de si mesmo — de seus delírios afetivos, de seus apegos literários e da tendência a transformar ficção em projeto de vida.

A primeira cena já antecipa o pacto que será exigido do espectador: Jane Seymour surge com um cordeiro artificial no colo, em um cenário que remete menos ao século 19 e mais a uma montagem escolar extravagante. Trata-se de um aviso sem sutilezas — quem vier em busca de realismo, sobriedade ou qualquer resquício de reverência, está no lugar errado. Aqui, a teatralidade é não apenas declarada, mas empurrada à beira do ridículo como parte essencial da experiência. Não há disfarce. Há, ao contrário, uma valorização assumida do artifício, que se transforma em veículo para examinar comicamente a dependência emocional construída em torno do imaginário austeniano.

Jane Hayes (Keri Russell), protagonista dessa jornada tragicômica, é a personificação de um tipo muito reconhecível: aquela mulher cuja vida afetiva foi moldada — e, em certa medida, sabotada — pelas expectativas irreais dos romances clássicos. Abandonada por um parceiro que a vê como emocionalmente anacrônica, ela não reage com introspecção, mas com fuga: investe cada centavo em uma experiência imersiva num resort temático que recria, com meticulosa (e duvidosa) fidelidade, o universo dos livros de Jane Austen. No entanto, o que poderia ser apenas uma indulgência excêntrica se converte em um espelho cômico das neuroses contemporâneas, em que cada personagem vive um papel previamente roteirizado e toda relação se torna performance.

A engrenagem do parque Austenlândia gira em torno da ideia de encenação total. Há cavalheiros falsamente sisudos, damas histriônicas, e uma série de rituais que oscilam entre o constrangimento e a delícia cômica. A atuação propositalmente afetada do elenco — com destaque para JJ Feild, que transforma Henry Nobley em um Darcy autoconsciente e quase entediado com a própria função — reforça a natureza farsesca do ambiente. Nenhum gesto é espontâneo; tudo é coreografado para satisfazer as fantasias das hóspedes. Mas é nesse teatro mal ensaiado que o filme encontra sua inteligência: ao ironizar a artificialidade do lugar, ele também questiona as máscaras que usamos fora dele.

Jennifer Coolidge, em um de seus desempenhos mais divertidos, encarna Miss Charming com uma energia descompensada que dinamita qualquer resquício de decoro. Ela não está ali para simular a era vitoriana com verossimilhança, mas para desmascarar — com humor — o ridículo das idealizações sentimentais. A sua presença, assim como a de outros coadjuvantes grotescamente deliciosos, amplia o tom de paródia e desafia o público a não levar nada a sério — exceto, talvez, a seriedade com que levamos as próprias ilusões. É um jogo perigoso, em que o riso fácil esconde pequenas verdades desconfortáveis.

O maior mérito de “Austenland” está na escolha consciente de não se redimir. O filme nunca tenta justificar sua irreverência com uma lição edificante ou um arco emocional previsível. Ainda que haja romance e reviravolta — ingredientes inevitáveis do gênero —, o foco está sempre deslocado para a encenação coletiva, para o descompasso entre desejo e realidade, para o prazer quase infantil de brincar de época em pleno século 21. O espectador que aceita essa proposta encontra não apenas diversão, mas um olhar sutilmente crítico sobre o modo como consumimos ficção como se fosse uma extensão da experiência real.

Se Woody Allen, em “Meia-Noite em Paris”, explora o escapismo romântico com elegância melancólica, Hess escolhe o caminho oposto: desnuda o anacronismo com uma comédia desajeitada e deliciosamente autoconsciente. O cenário é kitsch, os diálogos são propositalmente absurdos, e a própria lógica interna do filme beira o nonsense — mas tudo isso está a serviço de uma reflexão aguda sobre a nostalgia como vício cultural. É uma sátira sem cinismo, que ri dos devaneios sem desrespeitá-los, reconhecendo que há beleza mesmo nas fantasias mais tolas, desde que saibamos que são apenas isso: fantasias.

Talvez por isso “Austenland” tenha sido subestimado por parte da crítica. O humor escrachado, a estética propositalmente cafona e a premissa inusitada soam fáceis de descartar. Mas por trás da aparência farsesca existe um gesto de subversão raro em comédias românticas: o filme não oferece uma catarse convencional, mas uma reeducação afetiva travestida de brincadeira. No final — que inclui uma sequência pós-créditos digna de um musical de colégio —, resta uma sensação peculiar: não a de ter assistido a uma sátira, mas a de ter vivido, por alguns minutos, a desconstrução lúdica de uma fantasia coletiva.

“Austenland” não promete autenticidade histórica, nem profundidade dramática. O que ela oferece é algo mais arriscado e, em última instância, mais verdadeiro: o convite a reconhecer o quão ridículos podemos ser quando tentamos viver romances que só fazem sentido nas páginas de um livro. E ao fazê-lo, entrega uma forma rara de libertação — aquela que só vem quando somos capazes de rir de nossos próprios delírios.

Filme: Austenland
Diretor: Jerusha Hess
Ano: 2013
Gênero: Comédia/Romance
Avaliação: 7/10 1 1
★★★★★★★★★★