Em um tempo anterior à linguagem como a conhecemos, antes da ideia de civilização tomar forma, existia apenas o ruído cru da sobrevivência e o gesto como linguagem inaugural. “Alfa”, dirigido por Albert Hughes, entra nesse intervalo entre o instinto e a história. Mas engana-se quem espera uma crônica arqueológica ou um ensaio sobre o Paleolítico. O que o filme oferece, com um rigor estético que beira a hipnose, é um mito de origem: não de fatos, mas de sentimentos. O reencontro ficcional com a primeira parceria entre homem e animal não pretende esclarecer o passado — pretende tocá-lo como quem toca uma memória que nunca viveu, mas reconhece.
Situado há cerca de 20 mil anos, o longa acompanha a jornada solitária de Keda, um jovem lançado à própria sorte após ser deixado como morto por sua tribo. A premissa poderia cair no terreno do previsível — um humano ferido, um lobo também, e uma improvável amizade nascendo da necessidade mútua. Mas “Alfa” se desvia do sentimentalismo fácil justamente ao confiar na contenção como linguagem. O vínculo entre os dois protagonistas não se constrói por diálogos artificiais ou trilhas sonoras manipulativas, mas pelo olhar atento às hesitações, pelo respeito ao tempo de cada aproximação. O afeto, aqui, não é declarado — é aprendido, quase domesticado, como se fosse um idioma que exige silêncio antes de ser compreendido.
A força dessa narrativa repousa em seu minimalismo dramático. O filme escolhe não explicar, não contextualizar demais, não conduzir o espectador pela mão. E é nessa recusa à superexplicação que reside seu mérito mais raro: permitir que a imagem, enfim, pense por si. A fotografia — com suas paisagens glaciares, planícies infinitas e céus que parecem não terminar — não serve apenas à beleza contemplativa. Ela funciona como contraponto e espelho: o mundo externo ecoa o estado interior de Keda, à medida que o medo inicial vai sendo dissolvido por uma estranha e crescente sensação de pertença, não a uma tribo, mas a um vínculo novo, instintivo, imemorial.
Há algo de quase ritualístico na travessia do protagonista. O percurso físico, que envolve tempestades, ferimentos e predadores, é também um rito silencioso de passagem. Em cada obstáculo superado, não se trata apenas de continuar vivo, mas de se tornar outro — alguém que não volta para casa sendo o mesmo. O lobo, nesse contexto, deixa de ser figura auxiliar. Ele não é animal de estimação, não é símbolo decorativo: é a consciência externa do personagem, um alter ego selvagem e sensível que o força a abandonar a lógica do domínio para abraçar a ética da convivência. Eles não se domesticam — se reconhecem.
A performance de Kodi Smit-McPhee sustenta essa proposta com uma entrega quase meditativa. Seu Keda fala pouco, sente muito, e se expressa com uma vulnerabilidade que não exige lágrimas nem heroísmo para ser convincente. É no modo como ele hesita, recua, avança com cuidado, que se constrói a humanidade do personagem. A escolha por uma língua inventada reforça essa estética de estranhamento: tudo parece ao mesmo tempo distante e próximo, como se estivéssemos vendo o rascunho da civilização traçado com sangue, neve e silêncio.
Ainda assim, o filme não escapa de alguns percalços. O roteiro, embora funcional, por vezes sacrifica a densidade em nome da fluidez. Certas passagens surgem abruptas, como se a montagem tivesse receio de insistir demais na introspecção. Personagens coadjuvantes, especialmente o pai de Keda, esboçam complexidade, mas logo são engolidos pela linearidade da jornada. Há também momentos em que o CGI atravessa o limite do plausível e ameaça quebrar a imersão — não por excesso técnico, mas por carência de organicidade. No entanto, esses deslizes não comprometem a integridade da proposta. A narrativa permanece fiel ao que deseja: não impactar pela grandiosidade, mas tocar pela precisão emocional.
O que faz de “Alfa” uma experiência singular não é a fidelidade arqueológica — que, aliás, nunca foi sua ambição —, mas a coragem de sugerir que, antes de qualquer linguagem articulada, o que fundou nossa humanidade foi a capacidade de confiar. Em um mundo onde tudo era ameaça, dois seres deslocados ousaram partilhar abrigo, calor e comida. Não por estratégia, mas por escolha. E é essa escolha que funda uma ética — não a da força, mas a do cuidado.
Pode-se ver “Alfa” como um filme de sobrevivência. Pode-se classificá-lo como drama de formação. Pode-se até reduzi-lo a um épico para quem ama cães. Mas todas essas rotulações falham em capturar o que de fato pulsa ali: uma parábola sobre a potência do encontro. Sobre como o medo pode ser o primeiro passo do afeto, e como o instinto de matar pode ser reescrito como impulso de proteger. Em tempos em que as narrativas se atropelam em busca de espetáculo, “Alfa” desacelera, respira fundo e sussurra — em imagens, não em palavras — que o elo entre espécies não começou com a domesticação, mas com a escuta mútua.
Não há grandes revelações, nem viradas mirabolantes. Há apenas a constatação de que, em algum ponto da nossa história não documentada, a solidão foi interrompida por um gesto de confiança. E que, desde então, seguimos acompanhados — não apenas por animais, mas por essa memória ancestral de que caminhar junto, mesmo no gelo, é sempre mais possível do que resistir sozinho.
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