Há algo fascinante no modo como “Venom” se recusa a seguir qualquer lógica previsível, como se fosse o produto de um pacto instável entre o absurdo narrativo e a obsessão performática de Tom Hardy. Em vez de aderir à ordem homogênea dos filmes de herói contemporâneos — essa engrenagem cronometrada de arcos dramáticos e causas universais —, o longa se comporta como um corpo fora de controle, cambaleando entre o grotesco e o patético com uma consciência quase sarcástica. O protagonista não é apenas Eddie Brock, o repórter fracassado que se funde a uma entidade alienígena; é também Tom Hardy, numa encarnação que opera fora do eixo, cruzando o território de Marlon Brando e do Animal dos Muppets, onde a histeria se torna ferramenta de expressão dramática. A atuação carrega o filme nos ombros — ou melhor, nas mandíbulas — e transforma o simbionte em metáfora de um cinema que já não se envergonha da própria desordem.
Essa desordem, aliás, é estratégica. “Venom” parece ter plena ciência de seu lugar desconfortável no tabuleiro das franquias derivadas: não pertence integralmente ao Universo Cinematográfico Marvel, tampouco se encaixa no purismo dos spin-offs pensados para expandir mitologias com precisão cirúrgica. O filme se instala na zona de ruído, onde os estúdios ainda testam os limites da tolerância do público. O resultado é uma narrativa tão saturada de CGI quanto de contradições tonais, oscilando entre a paródia involuntária e o terror corporal estilizado. Nada é completamente funcional, mas tudo pulsa com uma energia errática que provoca mais do que muitos produtos formatados. Há perseguições que beiram a caricatura, batalhas noturnas ilegíveis e uma estética plástica que torna o simbionte quase indistinguível de sua contraparte vilanesca — e, paradoxalmente, é nesse excesso que o filme adquire densidade.
A recusa em alcançar equilíbrio pode ser lida como ruína, mas também como libertação. Enquanto boa parte do cinema de herói pós-2008 se ajoelha diante de uma gravidade encenada — tentando emular o peso filosófico de “Batman: O Cavaleiro das Trevas” ou a ambição estrutural de “Vingadores: Guerra Infinita” —, “Venom” opta por flertar com a vulgaridade. Não há lições morais. Não há dilemas éticos elevados. Há um homem destruído, um simbionte faminto e uma cidade que serve de palco para uma coreografia de destruição onde a ética se submete ao instinto. A simbiose entre Brock e Venom se forma menos por afinidade e mais por resignação: dois párias unidos por necessidade, cuja convivência se constrói à base de insultos, acordos improvisados e momentos de autodepreciação. É uma antítese cômica dos pares clássicos de heróis e ajudantes — aqui, o “ajudante” é uma criatura que ameaça devorar o protagonista a qualquer momento.
Nesse campo de forças dissonantes, os personagens secundários orbitam como satélites em rotação vacilante. Michelle Williams, ainda que claramente deslocada, injeta uma dose de dignidade que contrasta com o absurdo ao redor. Jenny Slate encontra em sua breve participação uma função vital: ser o elo que legitima o colapso de Eddie sem convertê-lo num clichê completo. Já Riz Ahmed, envolto em clichês corporativos e messiânicos, é menos um vilão e mais um instrumento para ativar a jornada destrutiva do simbionte — e, por extensão, do próprio filme. “Venom” não se preocupa em esconder seus buracos de roteiro ou seu apego a fórmulas simplificadas. Mas tampouco tenta compensá-los com afetação. Ele escancara seus limites como quem diz: este é o caos que sobrou quando os roteiristas foram embora e Tom Hardy decidiu continuar atuando sozinho.
A comparação inevitável com “Homem-Aranha 3” revela não apenas uma recuperação do personagem, mas um ajuste de linguagem. Onde Topher Grace entregava um Venom domesticado pelo moralismo narrativo, Hardy oferece um corpo em convulsão, cuja dor não busca redenção, mas uma forma minimamente funcional de coexistência. A criatura não é uma ameaça externa que deve ser vencida, mas um vício interno que precisa ser administrado. Isso aproxima o filme mais da tragédia corporal do que do heroísmo convencional, onde o poder não é dom, mas contaminação. Há algo de Cronenberg nessa transformação involuntária que transforma o protagonista num meio-termo grotesco entre humano e aberração, e o filme parece saber disso — mesmo que evite assumir essa referência de forma explícita.
Seria fácil descartar “Venom” como um produto disfuncional — e, em certo sentido, ele é. Mas essa disfuncionalidade opera como estratégia estética, como ruptura com o modelo higienizado de superproduções que se esforçam para parecer mais do que são. Ao invés de disfarçar suas imperfeições com camadas de simbolismo reciclado ou com frases de efeito vazias, o filme opta por rir de si mesmo enquanto mastiga cabeças e sussurra obscenidades na mente do espectador. É justamente por não tentar ser relevante que acaba ganhando relevância. No fim, “Venom” talvez não saiba o que quer ser — mas nesse devaneio de identidade, oferece um tipo raro de entretenimento: aquele que não pede desculpas por existir.
★★★★★★★★★★