Na Londres do final do século 19, um artista de traços excêntricos e mente inquieta encontrou nos gatos não apenas um tema de expressão, mas também um reflexo de suas próprias fissuras emocionais. “A Vida Eletrizante de Louis Wain” reconstrói com delicadeza e estranheza a vida de Louis Wain, ilustrador britânico que atravessou os limites do convencional ao transformar felinos em protagonistas de cenas cômicas, filosóficas e até psicodélicas. Seu legado, hoje reconhecido como fundamental para a popularização dos gatos como animais domésticos no Reino Unido, é apresentado com um misto de assombro e ternura, em uma narrativa que alterna entre a melancolia e a fantasia. A direção de Will Sharpe, profundamente marcada por sua própria vivência com o transtorno bipolar tipo II, contribui para a construção de um retrato complexo, onde as fronteiras entre genialidade e desequilíbrio se embaralham, em sintonia com o caos interno de seu protagonista.
Benedict Cumberbatch, em um desempenho visceral, mergulha com convicção nos labirintos mentais de Wain, oferecendo ao público um personagem simultaneamente fascinante e frágil. Sua performance, por vezes comparável ao que entregou em “O Jogo da Imitação”, imprime humanidade a um homem cuja trajetória foi marcada por perdas, isolamento e visões intensas que ultrapassavam o campo da realidade. Ao lado dele, Claire Foy, como a governanta Emily Richardson-Wain, encarna um raro ponto de equilíbrio emocional, simbolizando um breve sopro de estabilidade em uma vida corroída por tragédias familiares e instabilidades psíquicas. Essa relação, atravessada por tensões de classe e pela iminência da tragédia, dá ao filme uma atmosfera que remete à abertura de “Up: Altas Aventuras”: a beleza de um amor possível apenas por um curto período de tempo, mas eterno em sua significação emocional.
A produção aposta em escolhas estéticas que remetem ao passado — e nem sempre com sucesso. A decisão de filmar em proporção 4:3, por exemplo, resulta em uma experiência visual por vezes sufocante, que limita a imersão em um universo já naturalmente claustrofóbico, dada a densidade emocional e a pressão familiar que recai sobre o protagonista. Ainda que tal escolha dialogue com a ideia de um mundo interior comprimido, suas consequências visuais acabam por restringir a amplitude que a direção de arte e a fotografia se esforçam para construir. Por outro lado, a trilha sonora — com destaque para o uso do theremin, instrumento cujas vibrações evocam ora ternura, ora estranhamento — contribui para intensificar a sensação de se estar diante de uma mente em constante conflito, amplificando os efeitos das alucinações e da progressiva perda de contato com o real.
Há, contudo, um certo pudor em mergulhar completamente na loucura de Wain. O roteiro flerta com suas visões — os gatos antropomorfizados, as paisagens surrealistas — mas raramente as abraça de maneira integral. Essa escolha preserva o tom de fábula, mas desperdiça a chance de explorar com mais contundência a natureza psicótica de sua imaginação. Se por um lado o filme opta por uma leveza quase etérea, por outro deixa no espectador o desejo de ver com mais intensidade as criaturas híbridas e os pesadelos que habitavam a mente do artista. A recusa em penetrar nos domínios mais sombrios de sua psique parece refletir uma cautela compreensível — e até respeitosa —, mas que resulta em uma narrativa que hesita entre o drama psicológico e a excentricidade inocente.
“A Vida Eletrizante de Louis Wain” é, no fim das contas, uma obra que escapa a classificações fáceis. Oscila entre a cinebiografia tradicional e o delírio onírico, entre o luto e a celebração, entre a fragilidade clínica e o vigor criativo. Sua força está menos na linearidade da história e mais na justaposição de atmosferas: ora contemplativas, ora febris. O filme não se pretende definitivo sobre seu protagonista — tampouco oferece respostas fáceis —, mas convida a uma aproximação sensível, quase afetiva, com alguém que, embora à margem de sua época, moldou de forma singular a relação cultural que temos com os gatos hoje. É uma experiência que exige paciência, atenção e entrega. Para quem aceita esse convite, o presente é raro: um retrato poético de uma alma incompreendida, capturado com empatia, beleza e estranheza na medida certa.
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