Com Dennis Quaid, filme no Prime Video é aula de história sobre um dos maiores ícones da política americana Divulgação / Rawhide Pictures

Com Dennis Quaid, filme no Prime Video é aula de história sobre um dos maiores ícones da política americana

“Reagan” tenta fazer o impossível: condensar mais de seis décadas de uma das figuras políticas mais influentes do século 20 em duas horas de projeção. O resultado dessa ousadia é previsível: um mosaico apressado de cenas desconexas que, em vez de construir um retrato coerente, se assemelha a uma linha do tempo ilustrada, onde os marcos históricos se sucedem sem profundidade ou contexto dramático. A infância em Dixon, os anos como ator, a guinada conservadora, a ascensão política e os dois mandatos presidenciais são retratados como episódios soltos, ligados apenas pelo fio tênue de uma cronologia rígida — e não por uma narrativa com substância.

Essa abordagem panorâmica, que poderia funcionar como base para uma série documental, aqui esvazia o potencial de um personagem histórico cujas ações redefiniram os rumos do planeta. A direção opta por um percurso abrangente, mas se recusa a demorar-se nos pontos decisivos: as negociações com Gorbachev, o desmantelamento gradual da União Soviética e os dilemas éticos do governo Reagan são tratados com a superficialidade de um manual escolar. Faltam tensões reais, conflitos internos, arestas dramáticas — tudo o que poderia transformar a biografia em cinema de verdade.

As deficiências estruturais se intensificam com escolhas estéticas pouco inspiradas. Os diálogos, excessivamente expositivos, ora pretendem humanizar o presidente com frases de efeito, ora recitam fatos históricos sem vida. A encenação, por sua vez, revela certa displicência na reconstituição de época — nem a iluminação, nem os figurinos, tampouco os ambientes são capazes de criar uma imersão autêntica. A narrativa se arrasta entre cenas que soam mais como reencenações para TV do que como momentos cinematográficos capazes de mover o espectador.

Apesar disso, há um esforço visível de Dennis Quaid em tornar seu Reagan mais do que uma caricatura ideológica. Ele busca nuances, evita o tom messiânico que tantas vezes acompanha retratos conservadores e encontra espaço para sugerir dúvidas, hesitações, fragilidades. Seu desempenho, no entanto, é engolido pela estrutura ineficaz do filme. Nenhuma atuação individual é capaz de sustentar uma narrativa que se recusa a escolher um eixo dramático. Ao tentar narrar tudo, o filme sacrifica o essencial: a chance de articular um ponto de vista.

A comparação com “Lincoln”, de Steven Spielberg, é inevitável — e desfavorável. Lá, o foco restrito às negociações para aprovação da 13ª Emenda revelou mais do que uma vida inteira poderia sugerir. Aqui, o esboço genérico da trajetória de Reagan subtrai complexidade, exatamente onde mais havia o que explorar: os bastidores da Guerra Fria, a reconfiguração da política internacional, as contradições internas de um governo marcado por reformas econômicas radicais e escândalos diplomáticos.

Mesmo os eventos centrais do período — como o desastre de Chernobyl, o tratado INF de 1987 ou o escândalo Irã-Contras — são tratados de maneira episódica, como se sua presença bastasse para dar conta de sua relevância. A ausência de um olhar mais analítico ou de uma costura narrativa que conecte esses momentos enfraquece qualquer possibilidade de compreensão real do papel histórico de Reagan. Em um filme cujo personagem central moldou a geopolítica moderna, as implicações de suas decisões mal arranham a superfície.

Curiosamente, a escolha de narrar a história a partir da perspectiva de um ex-agente da KGB sugere, por um breve instante, um caminho alternativo — mais ousado, mais criativo. Essa abordagem, que poderia iluminar as tensões entre os blocos ideológicos a partir de uma lente não-americana, acaba relegada a um artifício narrativo mal aproveitado, utilizado apenas como recurso de enquadramento. Ainda assim, é uma das poucas ideias com algum brilho, capaz de provocar reflexão sobre como Reagan era visto do outro lado do Muro.

“Reagan” também revela algo sobre seu público-alvo. Quem viveu os anos 1980 pode reencontrar aqui fragmentos de memória: a política econômica conhecida como “Reaganomics”, o projeto do escudo antimísseis “Guerra nas Estrelas”, a retórica anticomunista que alimentou tanto medo quanto fervor patriótico. Há, para parte da audiência, uma nostalgia que o filme busca acionar, mas sem construir significados mais profundos a partir dela. Já os espectadores críticos — sobretudo os que analisam a figura de Reagan sob a ótica da esquerda — encontrarão mais motivos para lamentar a ausência de um olhar mais rigoroso e menos laudatório.

O filme tropeça em sua própria ambição. A tentativa de glorificar um personagem tão divisivo sem enfrentar suas contradições enfraquece qualquer intenção de análise histórica. Não é a falta de material que compromete a experiência, mas a recusa em tratá-lo com a densidade que exige. A direção parece temer o confronto com as ambiguidades do personagem e, por isso, opta pela neutralidade morna — uma escolha que desidrata o potencial do projeto desde sua origem.

“Reagan” queria ser uma grande biografia, mas preferiu o atalho da cronologia exaustiva, como quem acredita que quantidade de informação equivale a profundidade. Em vez de explorar as grandes decisões que mudaram o século 20, preferiu transitar por tudo o que o cercou, sem nunca entrar, de fato, nos dilemas centrais. Resta um paradoxo: um filme sobre um presidente que moveu o mundo, mas que não consegue mover o espectador. Faltou foco, faltou coragem, e, acima de tudo, faltou escolha.

Filme: Reagan
Diretor: Sean McNamara
Ano: 2024
Gênero: Biografia/Drama/História
Avaliação: 7/10 1 1
★★★★★★★★★★