A beleza clássica de Chris Pine sempre foi uma bênção ambígua. Em uma indústria obcecada por superfícies, seu semblante esculpido com precisão quase arquetípica o alçou com naturalidade ao protagonismo — mas também o confinou em um tipo físico que frequentemente dispensa complexidade em troca de presença. Pine não foi ignorado pelo sistema, tampouco plenamente aproveitado por ele. Seu rosto “de cinema” parece agora um vestígio de uma era em que bastava estar na tela para significar algo. Hoje, num cenário onde se exige que os astros justifiquem sua relevância com escolhas narrativas consistentes, Pine parece estar à beira de uma reinvenção ainda embrionária. A promessa de um intérprete disposto a correr riscos está ali — mas ainda sem um filme à altura dessa disposição.
Rodado na Romênia, “Contrato Perigoso” é tido como um suspense político disfarçado de ação e coloca Pine no centro absoluto da narrativa. Sua presença domina quase todos os planos, o que só torna mais evidente a fragilidade do material que lhe foi entregue. O roteiro se ancora em um ciclo narrativo gasto: um homem íntegro, vítima de uma traição inexplicada, decide confrontar um sistema opressor à base de violência. É um percurso já trilhado tantas vezes que a simples repetição exige algo mais — seja uma reinterpretação temática, seja uma renovação estética. Nenhuma das duas ocorre aqui. O filme se acomoda no caminho mais seguro, e com isso esvazia qualquer chance de provocar algum incômodo autêntico.
Há tentativas esparsas de conferir textura emocional à jornada do protagonista — a ternura resignada de Mike diante do filho ou o reencontro soturno entre James e Virgil no esconderijo. No entanto, esses momentos funcionam mais como pausas entre cenas de ação do que como impulsos para uma transformação genuína. Eles não alteram a trajetória emocional dos personagens, tampouco oferecem resistências narrativas que obriguem o público a pensar. Tudo retorna, rápida e mecanicamente, ao conforto das armas e perseguições. O filme hesita diante de sua própria humanidade.
O maior revés, contudo, está naquilo que o roteiro abandona quase de imediato: a promessa de dissecar um aparato de poder contaminado por alianças oportunistas, estruturas carcomidas e lealdades ambíguas. O pano de fundo — tão propício a reflexões sobre as distorções do aparato estatal — é relegado a mera moldura. A violência, que poderia ser o ponto de ignição de um comentário mais agudo sobre o colapso moral das instituições, torna-se fim em si mesma. A lógica da vingança substitui a da crítica. O vilão permanece fora de alcance; as mortes recaem apenas sobre corpos periféricos. O resultado é um espetáculo autossuficiente de ruído e impacto, mas desprovido de reverberação real.
O elenco de apoio — promissor no papel — mal tem tempo de se justificar em cena. Ben Foster, Kiefer Sutherland, Eddie Marsan e Florian Munteanu orbitam a trama como elementos publicitários, e não como personagens com agência. Suas participações são fugazes, desprovidas de consequência dramática. Em vez de alicerçar a narrativa, eles a enfeitam. Essa subutilização dos coadjuvantes reforça a impressão de um projeto conduzido com foco em eficiência mercadológica, não em consistência criativa. A direção de Tarik Saleh se revela competente nos aspectos técnicos, e há momentos de tensão bem resolvidos. Mas nenhum desses acertos isolados consegue mascarar a ausência de uma espinha conceitual sólida.
O que poderia ser uma investigação sobre dilemas éticos se dilui em coreografias previsíveis. Mesmo os trechos mais promissores — o embate contido entre James e Mike no estacionamento, a despedida muda no laboratório, ou a conversa enviesada com o cientista — são capturados pelo filme com certa hesitação, como se houvesse urgência em regressar ao tiroteio, como se a pausa implicasse fraqueza. Esses respiros, quando acontecem, revelam um filme alternativo, mais atento à dimensão subjetiva do conflito e mais disposto a escutar seus personagens. Mas eles passam como relâmpagos, ofuscados pelo temor de contrariar o apetite da audiência por ação incessante.
A experiência de assistir ao filme, portanto, é marcada por um paradoxo: a construção visual é apurada, a performance de Pine é honesta, e há momentos isolados de sutileza. Mas falta convergência. Nada se costura com a força necessária para gerar um impacto duradouro. A sensação é de uma promessa não cumprida — ou, pior, nem levada a sério. O espectador sai com a impressão de que tudo foi feito para funcionar, mas não para significar.
Chris Pine, com sua presença magnética e visível inquietação artística, permanece como um ator à espera de papéis que o desafiem de fato. Este filme, apesar de oferecer visibilidade e protagonismo, não é esse divisor de águas. Ele o mantém em uma zona de conforto revestida de seriedade, mas privada de densidade. Para que Pine realize o salto que se insinua em sua filmografia, será necessário mais do que carisma e cenas bem enquadradas: será preciso coragem narrativa — dele e dos roteiristas que o cercam.
★★★★★★★★★★