Poucas narrativas contemporâneas escancaram tão bem o descompasso entre ambição discursiva e execução estética quanto “Mestres do Assalto”, longa francês dirigido por Kamel Guemra. A trama gira em torno de quatro funcionários de um hotel de luxo que, ao cair da tarde, abandonam os modos polidos do expediente para encarnar justiceiros mascarados em motocicletas. Assaltam milionários na estrada, desviam objetos de luxo e retornam impunes a seus postos de trabalho. O filme, no entanto, evita deliberadamente enfrentar o dilema ético que essa dinâmica sugere: seriam eles anticapitalistas desiludidos ou oportunistas disfarçados de indignados? Em vez de assumir a contradição, o roteiro prefere diluí-la em uma miscelânea de gêneros, flertando ora com o thriller, ora com o slasher, sem jamais fincar os pés na crítica social que a premissa supostamente evoca.
O maior erro de “Mestres do Assalto” não é seu desinteresse em sofisticar a denúncia da desigualdade, mas o fato de pretender fazê-lo com o verniz de filmes como “Parasita” ou “Round 6”, sem dispor da coragem ou da estrutura dramática para isso. O grupo liderado por Nora — interpretada com carisma tenso por Zoé Marchal — não tem um propósito coletivo claro, tampouco um código que os diferencie de delinquentes ocasionais. A alegoria “eat the rich” é apenas uma metáfora estética: eles não desmantelam os símbolos do poder, apenas se apropriam deles por breves instantes. A gestão do hotel, por sua vez, encarna a hipocrisia da elite que se diz escandalizada com os assaltos, mas terceiriza a repressão a um mercenário sádico, Elias, que opera fora da legalidade para restaurar a ordem. O conflito entre o bando e o executor revela mais sobre o cinismo estrutural do sistema do que qualquer frase de efeito verbalizada ao longo da narrativa.
A tentativa de fazer de Elias um antagonista memorável até encontra êxito parcial, graças à performance perturbadora de Franck Gastambide, que encarna o personagem com uma frieza animalesca e sem qualquer vestígio de ambiguidade moral. Mas o confronto entre ele e o grupo de jovens fracassa como motor narrativo porque não há profundidade nos posicionamentos que os separam. Elias é o braço armado da elite; eles, seus ex-subordinados. Mas em lugar de provocar um embate ideológico, o filme opta por perseguições previsíveis e situações de risco sem lastro emocional. O momento em que Nora decide vingar a colega Oumou, violentada por um hóspede influente, prometia densidade dramática. No entanto, esse arco é abandonado sem qualquer resolução digna, reduzindo Oumou a um recurso narrativo descartável, como tantos corpos femininos usados para justificar a violência do protagonista em filmes que se dizem críticos, mas apenas reciclam fórmulas.
Tecnicamente, “Mestres do Assalto” apresenta momentos de vigor — perseguições bem coreografadas, uma ou outra cena de luta que realmente pulsa —, mas a execução visual carece de personalidade. A fotografia de Ludovic Zuili oscila entre o genérico e o funcional, sem jamais construir um olhar que traduza visualmente a tensão entre os mundos em choque. A montagem, por sua vez, insiste em alternâncias que sabotam qualquer tentativa de ritmo ou coesão narrativa. Fica evidente o esforço do elenco para conferir densidade aos papéis: Bosh compõe um Steve contido, mas de presença física imponente; Alassane Diong projeta serenidade como Prestance; Mareva Ranarivelo contrabalança charme e agressividade como Zoé. Ainda assim, mesmo o talento do grupo não basta para compensar o vácuo simbólico que o filme se recusa a encarar.
O problema de “Mestres do Assalto” não está na fusão de gêneros, mas na ausência de controle sobre eles. Misturar referências como “Fogo Contra Fogo”, “Dhoom” ou “Uma Saída de Mestre” poderia render uma alquimia interessante, desde que houvesse um núcleo dramático que sustentasse essas oscilações. Em vez disso, o que se vê é uma sucessão de desvios de tom, como se cada mudança de registro fosse uma tentativa desesperada de encontrar sentido no próprio enredo. Ao final, o espectador não sabe se assistiu a uma sátira truncada, a um manifesto visual diluído ou a um thriller moralmente confuso. Essa indecisão transforma o que poderia ser uma crítica contundente à exploração sistêmica em uma colagem de boas intenções sem consequência.
Há algo de sintomático no fracasso de “Mestres do Assalto”: ele reflete um esgotamento de discursos que não sabem mais como dramatizar a luta de classes sem convertê-la em estética. O gesto de “eat the rich” perdeu sua potência simbólica justamente porque se tornou produto — um slogan que pode ser vendido em camisetas, memes ou trailers estilizados, mas que já não carrega risco, nem subversão real. Quando um filme se apropria desse gesto sem confrontar suas implicações éticas e políticas, ele acaba por reafirmar o sistema que finge denunciar. Ao final, “Mestres do Assalto” não desafia as estruturas que descreve — apenas encena sua permanência, com trilha sonora pulsante e final ensanguentado.
A tragédia maior talvez não seja o filme falhar, mas fazê-lo de forma tão acomodada. Ao invés de provocar, afaga. Em lugar de questionar, performa indignação com a distância segura de quem sabe que o sistema continuará intacto. Não se trata, portanto, de sugerir que cineastas abandonem o tema da desigualdade, mas de exigir que o enfrentem com a radicalidade que ele impõe. Porque o cinema que realmente desafia não se contenta em fingir que morde — ele faz sangrar.
★★★★★★★★★★