Indicado ao Oscar, um dos maiores thrillers de tribunal, com Robert Duvall e Robert Downey Jr., está na Max Claire Folger / Warner Bros.

Indicado ao Oscar, um dos maiores thrillers de tribunal, com Robert Duvall e Robert Downey Jr., está na Max

Em meio ao vasto universo de dramas judiciais que povoam o cinema, “O Juiz” (2014) se diferencia pela intensidade emocional que permeia sua narrativa. Sob a direção de David Dobkin, o filme vai além da estrutura tradicional do gênero de tribunal ao explorar as feridas de uma relação paterno-filial marcada por orgulho, ressentimento e uma luta velada por redenção. Mais do que um thriller legal, a história se desdobra como um estudo profundo sobre a fragilidade das relações humanas.

No centro da trama está Hank Palmer (Robert Downey Jr.), um advogado de defesa que construiu sua carreira com um pragmatismo afiado e uma postura arrogante. Ao retornar à pequena cidade de Carlinville, Indiana, para o funeral de sua mãe, ele se vê forçado a encarar um passado que preferia esquecer. Seu pai, Joseph Palmer (Robert Duvall), um juiz respeitado e de moral inflexível, representa o contraponto exato a Hank. A tensão entre os dois é palpável desde o primeiro reencontro, e cada interação parece carregar anos de silêncio e cobranças não ditas.

A virada dramática ocorre quando Joseph é acusado de homicídio ao atropelar um homem que ele havia condenado no passado. A relação já desgastada entre pai e filho é posta à prova quando Hank assume a defesa do patriarca, mesmo contra sua vontade. O que poderia ser apenas um enredo centrado no tribunal se revela uma jornada de desconstrução de paradigmas: Hank não está apenas lutando por um veredicto favorável, mas por um entendimento tardio sobre quem realmente é seu pai e, por consequência, sobre si mesmo.

A força do filme está na atuação magnética de Robert Duvall. Com uma presença que alterna entre a rigidez e os momentos de vulnerabilidade, sua performance confere uma autenticidade notável ao personagem. Não à toa, sua interpretação lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Já Robert Downey Jr., embora acostumado a papéis carismáticos e espirituosos, adiciona camadas de fragilidade à arrogância inicial de Hank, tornando-o um protagonista complexo e crível.

No entanto, “O Juiz” não está isento de falhas. A narrativa, em alguns momentos, se dispersa ao tentar abarcar subtramas que nem sempre contribuem para o cerne emocional do filme. O divórcio de Hank, a relação com um antigo amor e os conflitos com seus irmãos são elementos que, embora acrescentem contexto, por vezes enfraquecem a intensidade da trama principal. Além disso, a dramatização excessiva em certos momentos do julgamento pode soar deslocada diante do tom intimista que predomina na obra.

Ainda assim, o filme acerta ao capturar a complexidade dos laços familiares sem recorrer a soluções simplistas. Cada olhar, cada silêncio e cada confronto verbal são carregados de uma história que transcende o que é dito. Mais do que um embate entre justiça e moralidade, “O Juiz” é um retrato sincero das dores e dos orgulhos que moldam nossas relações mais próximas. E, no fim, reafirma que algumas reconciliações acontecem não pelo desejo de apagar o passado, mas pela necessidade de entender que ele nos constrói.

Filme: O Juiz
Diretor: David Dobkin
Ano: 2014
Gênero: Crime/Drama/Mistério/Thriller
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★