Todd Phillips, conhecido por seu talento em explorar os excessos da natureza humana, mergulha em um território inesperado ao contar a história real de David Packouz e Efraim Diveroli, dois jovens que, contra todas as probabilidades, conseguiram um contrato milionário para fornecer armamento ao Exército afegão por meio do Pentágono. “Cães de Guerra” constrói um retrato onde ambição desenfreada, oportunismo e uma moralidade elástica se misturam em um cenário tão absurdo quanto real.
Miles Teller assume o papel de David, um massagista sem grandes perspectivas, cuja vida dá uma guinada ao reencontrar Efraim, interpretado por Jonah Hill. Se David representa a hesitação de quem pisa em território desconhecido, Efraim é a personificação da audácia inescrupulosa. Visionário no pior sentido da palavra, ele identifica e explora falhas do sistema para ascender no competitivo e sombrio mercado bélico. A criação da AEY, empresa que se aproveita de contratos militares negligenciados por grandes corporações, torna-se um reflexo do próprio mecanismo de um sistema onde as brechas podem ser mais lucrativas do que o respeito às regras. A química entre Teller e Hill sustenta a narrativa, com o primeiro transmitindo a vulnerabilidade do protagonista e o segundo encarnando um misto de carisma e ameaça que magnetiza a tela.
Phillips conduz a história com um vigor que evoca ecos de “Scarface” e “O Senhor das Armas”, fazendo uso de um humor ácido para intensificar o absurdo dos eventos retratados. Apesar da publicidade sugerir uma comédia explosiva, o filme se equilibra entre momentos de tensão e um riso inquietante, destacando-se pela forma como transforma o cômico em algo desconfortavelmente real. Jonah Hill, em particular, entrega uma atuação que desafia categorizações simples: seu Efraim exala um carisma repulsivo, tornando-se uma figura tão sedutora quanto perigosa.
A trilha sonora, composta por faixas icônicas de 50 Cent, Beastie Boys e Iggy Pop, adiciona ritmo e intensidade à narrativa. Se por vezes a escolha das músicas beira o óbvio, há momentos em que funciona como um sublinhado da atmosfera caótica e da espiral de excessos na qual os protagonistas se lançam. A fotografia, por sua vez, recorre a cores saturadas e a um dinamismo visual que captura tanto o frenesi de Miami quanto a crescente paranoia que se instala conforme a trama avança. A estética não é apenas estilística, mas traduz o delírio de grandeza que impulsiona os personagens.
O elenco de apoio contribui para expandir o universo moralmente ambíguo do filme. Bradley Cooper, em um papel contido e enigmático, encarna um traficante de armas cuja presença sugere perigos silenciosos. Figuras como Kevin Pollak e Dan Bilzerian surgem em participações menores, mas reforçam a sensação de que os protagonistas estão brincando em um tabuleiro muito maior — e mais letal — do que imaginam.
Entretanto, se “Cães de Guerra” acerta ao manter o espectador imerso no jogo de seus protagonistas, ele opta por não aprofundar as implicações éticas de sua história. Diferente de “A Grande Aposta”, que desmantela de forma contundente os mecanismos do colapso financeiro de 2008, o filme de Phillips permanece na superfície, preferindo a tensão narrativa ao aprofundamento crítico. Isso, no entanto, não diminui o impacto da obra, pois a ambiguidade moral de seus personagens já carrega por si só uma força questionadora.
O desfecho escapa das fórmulas convencionais de ascensão e queda, deixando no ar uma inquietante sensação de continuidade. David pode ter aprendido algo com sua jornada, mas a sedução do dinheiro fácil raramente desaparece completamente. A ausência de uma moral explícita torna a conclusão mais próxima da realidade, onde nem sempre há lições definitivas — apenas novas oportunidades à espreita.
“Cães de Guerra” entrega um relato vibrante e envolvente sobre ganância e risco, apoiado em atuações marcantes e uma narrativa que, mesmo sem se aprofundar em críticas sociais, provoca reflexões sobre os limites da ambição. Jonah Hill reafirma sua versatilidade como ator e Todd Phillips demonstra que sua habilidade vai além da comédia, construindo uma história que, sem reinventar o gênero, se mantém fascinante e relevante.
★★★★★★★★★★