Acaba de chegar ao Prime Video o filme mais bonito que você vai ver neste fim de semana — por dentro e por fora Divulgação / Amazon Prime Video

Acaba de chegar ao Prime Video o filme mais bonito que você vai ver neste fim de semana — por dentro e por fora

Louis Wain enxergava o mundo como poucos — ou, talvez, como ninguém mais foi capaz de enxergar. Essa singularidade não se manifestava apenas nas pinceladas ousadas com que reinventou a imagem dos gatos no imaginário britânico, mas sobretudo na tentativa desesperada de traduzir em formas e cores um universo interno em ebulição permanente. “A Vida Eletrizante de Louis Wain” parte desse ponto de estranheza como potência criativa, mas hesita em mergulhar completamente no abismo que se abre entre o encantamento e a ruptura psíquica. O filme, dirigido por Will Sharpe, estrutura-se como um delicado equilíbrio entre o retrato de um artista extraordinário e a recusa em aceitar que seu olhar mágico era, ao mesmo tempo, um mecanismo de sobrevivência e um sintoma de devastação. Ao privilegiar a estética excêntrica e a leveza fantasiosa, a narrativa corre o risco de transformar em artifício aquilo que, na essência, foi tragicamente autêntico.

Benedict Cumberbatch, em uma de suas performances mais densas, evita qualquer caricatura ao compor um Louis Wain de afeto imediato e gestos incômodos. Não há heroísmo domesticado em sua trajetória, tampouco redenção óbvia — há apenas a crueza de um homem cuja sensibilidade o tornava funcional apenas no terreno da criação. Wain sustentava, com traços simultaneamente obsessivos e líricos, uma casa que não lhe oferecia trégua: cinco irmãs que não contribuíam, uma mãe excêntrica e uma Inglaterra vitoriana pouco disposta a acolher qualquer desvio da norma. É nesse contexto que o amor por Emily Richardson, interpretada com precisão emocional por Claire Foy, surge não como salvação, mas como respiro. A dinâmica entre eles não se apoia na idealização romântica: é uma parceria entre desajustados, construída sobre o reconhecimento da vulnerabilidade mútua. A adoção de Peter, o gato de rua, sela esse pacto afetivo e inaugura um ciclo em que a ternura e a perda tornam-se faces da mesma experiência.

Sharpe conduz com sensibilidade os primeiros movimentos da narrativa, amparado por um design de produção inventivo e pela narração espirituosa de Olivia Colman, que introduz o espectador a uma Inglaterra “estranha e cheia de preconceitos sociais”, mas igualmente fascinada por eletricidade e descobertas científicas. É nesse campo metafórico que Wain inscreve sua própria teoria: para ele, a eletricidade era a chave para compreender o tempo, as memórias e os impulsos criativos. Seu pensamento, impregnado de uma lógica alheia ao senso comum, serve de guia para a progressiva mutação estética de suas ilustrações — que, à medida que sua sanidade se desfaz, tornam-se cada vez mais caleidoscópicas, simétricas e desconectadas da realidade empírica. O filme, no entanto, não sustenta a mesma coerência narrativa: após um primeiro ato consistente, embaralha-se em uma sequência apressada de eventos, como se o impulso de abranger toda a biografia sabotasse a densidade que antes fora conquistada.

Esse desequilíbrio revela uma hesitação fundamental: o filme oscila entre o retrato afetivo de um outsider e a tentação de suavizar as camadas mais sombrias de sua psique. A abordagem da doença mental carece de precisão interpretativa — ora flertando com a fantasia estilizada, ora tentando um realismo fragmentado —, o que enfraquece a potência crítica da narrativa. Mesmo assim, permanece impossível ignorar a carga emocional que atravessa as imagens de Wain, cuja técnica incomum — desenhava com as duas mãos simultaneamente — e cujas obsessões estéticas hoje seriam analisadas sob o prisma do neurodesenvolvimento. As experiências alucinatórias, os períodos de reclusão psiquiátrica e a melancolia paralisante que o acometeu após a perda de Emily e de Peter são tratados com certa delicadeza visual, mas não ganham a profundidade que o tema exigiria. Ainda assim, há momentos em que o filme toca, com sobriedade rara, a dor inarticulável de um homem que buscava refúgio na beleza justamente quando tudo ao redor se tornava insuportável.

Se há uma força que atravessa os desequilíbrios estruturais da narrativa, ela está na capacidade de “A Vida Eletrizante de Louis Wain” provocar uma pergunta inquietante: o que estamos dispostos a sacrificar em nome da genialidade? Wain nunca foi compreendido integralmente por seus contemporâneos — nem mesmo quando sua popularidade estourou com os desenhos de gatos trajando ternos, tomando chá ou praticando críquete. A crítica social implícita nesses quadros — sátiras de um cotidiano burguês em ruínas — foi eclipsada pela excentricidade do estilo. Até hoje, permanece a ambiguidade: a celebridade de suas criações não acompanhou a valorização de sua figura. Talvez por isso o filme, mesmo em suas falhas, cumpra um papel relevante: resgatar a inquietação de um artista que não conseguia habitar o mundo como ele era, e por isso construiu outro — onde gatos são, ao mesmo tempo, espelhos, criaturas místicas e memoriais de um afeto que, para ele, foi sempre escasso.

Filme: A Vida Eletrizante de Louis Wain
Diretor: Will Sharpe
Ano: 2021
Gênero: Biografia/Drama/História
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★