História encorajadora na Netflix que vai fazer todos os seus problemas parecerem pequenos diante da imensidão da vida

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Poucos desafios evocam tamanha mistura de fascínio e temor quanto a travessia solitária pelos oceanos. “Destemida”, filme dirigido por Sarah Spillane e estrelado por Teagan Croft, mergulha na história real de Jessica Watson, jovem australiana que, aos 16 anos, ousou desafiar os limites do possível ao buscar se tornar a pessoa mais jovem a circunavegar o globo sem escalas e sem assistência. O longa propõe um relato inspirador de superação e perseverança, mas adota uma abordagem que, ao suavizar os aspectos mais árduos da jornada, acaba diluindo parte da intensidade da narrativa.

Desde seus primeiros instantes, a produção se apoia na figura carismática de Croft, cuja interpretação transmite tanto a vulnerabilidade quanto a determinação de Watson. Cliff Curtis, no papel do mentor Ben Bryant, adiciona solidez dramática, enquanto Anna Paquin e Josh Lawson, como os pais da protagonista, equilibram afeto e inquietação diante da audácia da filha. No entanto, a estrutura do filme opta por um viés mais edificante e otimista, minimizando a dimensão real dos desafios enfrentados no mar. O roteiro evita aprofundar as camadas de medo, solidão e risco extremo, apostando em uma condução narrativa que suaviza os obstáculos e, por consequência, limita o impacto emocional da travessia.

“Destemida” consegue capturar a imponência do oceano em sequências que contrastam beleza e isolamento. Há momentos de genuína contemplação, como quando Watson se vê cercada por um mar plácido sob um céu repleto de estrelas, embalado por “Starman”, de David Bowie. Essa cena sintetiza um dos principais acertos do filme: seu potencial em transmitir a dimensão poética da jornada, destacando a vastidão do desconhecido e a insignificância humana diante da natureza. Contudo, a segunda metade do longa acelera excessivamente os eventos, tornando a travessia mais uma sucessão de imagens do que um mergulho profundo na psique da protagonista. A tempestade climática que serve como clímax dramatiza um dos momentos mais perigosos da jornada, mas não consegue reproduzir plenamente o desamparo e a vulnerabilidade que Watson de fato vivenciou.

O filme também tangencia, sem grande profundidade, o ceticismo enfrentado pela jovem navegadora antes de sua partida. A desconfiança da mídia e os questionamentos sobre sua capacidade são mencionados, mas a narrativa opta por não explorar os embates internos e externos que tornaram essa empreitada ainda mais desafiadora. Diferentemente do documentário “210 Dias” e da autobiografia da própria Watson, que oferecem uma visão mais detalhada das adversidades e decisões críticas envolvidas na viagem, “Destemida” se inclina para uma dramatização segura, voltada a um público mais amplo, especialmente infantojuvenil.

Mesmo que a abordagem do filme suavize os riscos e o peso psicológico da experiência, ele cumpre sua proposta como uma obra motivacional. Ao destacar a coragem e a resiliência de Watson, inspira jovens espectadores a desafiar expectativas e perseguir seus próprios sonhos, por mais inatingíveis que possam parecer. Contudo, para aqueles que buscam uma representação mais visceral do que significa enfrentar o oceano sem garantias de retorno, “Destemida” pode soar como uma versão atenuada de uma história que, na realidade, foi marcada por desafios extremos e pela necessidade constante de superação. O longa captura o espírito da jornada, mas deixa escapar parte de sua essência mais crua e impactante.

Filme: Destemida
Diretor: Sarah Spillane
Ano: 2023
Gênero: Aventura/Biografia/Drama/Esporte
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★