A história real e impressionante de superação que vai te ajudar a sair do vitimismo, na Netflix Ali Güler/Netflix

A história real e impressionante de superação que vai te ajudar a sair do vitimismo, na Netflix

Histórias de deslocamento forçado costumam ser retratadas sob dois vieses predominantes: o enfoque no horror absoluto da travessia ou a transformação da tragédia em narrativa de superação. “As Nadadoras” encontra um ponto de equilíbrio raro entre esses extremos, dando dignidade à experiência migratória sem recorrer à vitimização simplista ou à exaltação excessiva da resiliência. Sob a direção de Sally El Hosaini, o filme reconta a jornada das irmãs Yusra e Sara Mardini com um olhar que não apenas registra os eventos, mas os insere dentro de um panorama maior, conectando as dores individuais às dinâmicas políticas e sociais que perpetuam crises humanitárias ao redor do mundo.

Desde os primeiros minutos, o filme estabelece um contraste marcante entre a juventude despreocupada das irmãs em Damasco, ainda envoltas em sonhos e aspirações, e a desintegração gradual da normalidade à medida que a guerra civil se intensifica. O roteiro evita didatismos excessivos ao construir esse ambiente, deixando que a violência se infiltre de maneira progressiva, transformando o cotidiano sem que haja uma ruptura abrupta. Quando a fuga se torna inevitável, o filme não se prende a um retrato genérico do sofrimento dos refugiados, mas humaniza cada escolha e cada obstáculo, tornando a jornada um mosaico de emoções cruas e decisões impossíveis.

O ponto alto da narrativa se concentra na travessia do Mar Egeu, momento em que o filme traduz, com crueza, o desespero de quem arrisca tudo por um futuro incerto. Sem exageros melodramáticos, a cena transmite a angústia de cada segundo em que a embarcação superlotada parece prestes a sucumbir. Mais do que um feito técnico, essa sequência ressoa pelo peso simbólico: o oceano, tão frequentemente associado à liberdade, transforma-se em um tribunal implacável que decide quem vive e quem se perde no esquecimento. As irmãs, nadadoras treinadas, assumem o papel involuntário de heroínas, mas a obra jamais romantiza esse ato. Não se trata de uma vitória gloriosa, e sim de uma batalha desesperada pela própria existência.

Ao chegarem à Europa, a narrativa evita a falsa promessa de um final redentor. O asilo não é sinônimo de aceitação, e a duração do sofrimento não garante compensação. A Europa que as irmãs encontram é ao mesmo tempo acolhedora e hostil, dividida entre aqueles que oferecem ajuda genuína e os que veem refugiados como um problema incômodo. Ao destacar essa dualidade, “As Nadadoras” se recusa a suavizar a realidade e desafia o espectador a refletir sobre as barreiras — visíveis e invisíveis — que continuam a excluir e desumanizar aqueles que buscam recomeçar.

Se o longa se mantivesse apenas na descrição da tragédia, sua força já seria notável. No entanto, o filme também encontra espaço para abordar a reconstrução de identidades despedaçadas. A trajetória de Yusra nos Jogos Olímpicos de 2016 adiciona uma camada extra de significado, transformando sua presença na competição em algo que transcende o esporte. A nado, ela não apenas representa uma bandeira, mas simboliza as incontáveis histórias de exílio e resistência que não chegam ao conhecimento público.

A recepção crítica ao filme reflete essa complexidade. Com 82% de aprovação no Rotten Tomatoes, ele foi elogiado pela veracidade de sua abordagem e pela atuação das irmãs Nathalie e Manal Issa, cuja naturalidade evita os maneirismos frequentemente associados a produções que tentam capitalizar emocionalmente sobre temas sensíveis. Embora alguns apontem que sua duração poderia ser mais concisa, essa expansão temporal se justifica pelo compromisso da obra em capturar não apenas os eventos, mas o peso psicológico e emocional de cada etapa da jornada.

“As Nadadoras” supera a história individual que retrata e se torna um espelho incômodo da forma como o mundo lida com crises migratórias. Ao transformar estatísticas em rostos, o filme nos obriga a encarar questões que muitos prefeririam evitar. Se a arte tem o poder de confrontar consciências e provocar reflexão, este é um exemplo emblemático de como contar histórias pode ser, também, um ato de resistência.

Filme: As Nadadoras
Diretor: Sally El Hosaini
Ano: 2022
Gênero: Biografia/Drama/Esporte
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★