Poucos personagens atravessam décadas sem se diluir em caricatura ou sucumbir à nostalgia oca. Bridget Jones, no entanto, desafia essa regra com uma vitalidade que não depende mais de vinho branco ou calcinhas bege, mas da rara habilidade de se permitir imperfeita sob novas luzes. Em “Bridget Jones: Louca Pelo Garoto”, a personagem se apresenta não como eco de uma versão anterior, mas como produto das perdas que a reconfiguraram. Ao invés de buscar rejuvenescimento artificial — ainda que um episódio cômico envolvendo preenchimento labial flerte com essa tentação —, ela se embrenha em um luto vivido sem atalho e em uma maternidade que a confronta com o caos ordinário. A força do filme reside justamente nesse intervalo entre o riso contido e o vazio deixado por Mark Darcy, cuja ausência pesa como uma sombra invisível em cada cena.
Renée Zellweger traduz essa nova Bridget com uma precisão emocional que evita tanto a autopiedade quanto o empoderamento fabricado. Em sua rotina desajustada — pijamas por horas, drinks improvisados, fracassos logísticos e silêncios sufocantes —, vemos a caricatura anterior transmutada em uma figura que já não precisa errar para divertir. As decisões do roteiro abandonam a busca por gags fáceis em favor de um humor de observação, que tira graça do constrangimento compartilhado, da inadequação silenciosa, da maternidade sem filtro e das tentativas desajeitadas de reacender uma libido amortecida. Bridget, ao aceitar um cargo em um programa de TV de médio alcance, não retorna ao trabalho como quem reencontra uma vocação, mas como quem reconhece a urgência de se movimentar para não ser engolida pelo marasmo do próprio quarto.
É nesse cenário de desestabilização silenciosa que entram os novos interesses românticos, que não competem entre si, mas revelam facetas distintas da Bridget que resiste em se reconfigurar. Roxster, 25 anos mais jovem, funciona menos como uma provocação social e mais como um espelho invertido: ele é o que ela não pode mais ser, mas cuja presença despretensiosa a reconecta a impulsos esquecidos. Já o Sr. Wallaker, um professor de ciências rigidamente atlético e introspectivo, encarna a possibilidade de intimidade construída sem espetáculo — algo mais denso, mais árido e, portanto, mais real. O que poderia ser apenas uma variação do triângulo amoroso tradicional da franquia se transforma em um jogo mais sutil de reconhecimentos e desistências, no qual nenhum romance é empurrado como resolução, mas apenas como caminho.
Mas o núcleo afetivo mais potente do filme pulsa na reentrada de Daniel Cleaver, o canalha lendário interpretado por Hugh Grant com a mesma elegância decadente que o tornou inesquecível. Sua presença, longe de ser uma repetição cômica, revela um homem que envelheceu como um mito fora de tempo — e que, justamente por isso, se presta a confidências tardias e gestos generosos. Nas conversas entre ele e Bridget há uma ternura insuspeita, como se ambos finalmente entendessem que, por trás da mútua sabotagem, havia sempre uma cumplicidade inegociável. Essas cenas não apenas sustentam o humor mais afiado do filme, mas oferecem o contraponto exato à leveza sentimental dos novos relacionamentos, permitindo que Bridget se reposicione não como viúva inconsolável ou mãe heroica, mas como mulher em permanente elaboração.
O que surpreende em “Bridget Jones: Louca Pelo Garoto” não é sua trama, que se estrutura dentro de uma previsibilidade controlada, mas o modo como ela se recusa a satisfazer expectativas fáceis. Não há viradas dramáticas que forcem lições, nem resoluções que embalem a personagem em um novo “felizes para sempre”. O tom é melancólico, mas sem autopiedade; cômico, mas sem escárnio; romântico, mas sem ilusão. A direção de Michael Morris sustenta esse equilíbrio com discrição, permitindo que os personagens existam sem serem conduzidos por arcos rígidos. Até mesmo os acenos nostálgicos — os drinks coloridos, os apelidos indecorosos, as amigas fiéis — surgem não como fan service, mas como lembretes de que, apesar de tudo, ainda há pontes entre quem se foi e quem se é.
Esse não é mais o tempo das comédias desvairadas ou dos erros comedidos. O filme entende que a Bridget de agora carrega uma biografia que não pode ser editada com trilha sonora otimista. Há algo de corajoso na decisão de não tentar fazer dela a mesma de antes, apenas maquiada com dilemas contemporâneos. O que vemos é um encerramento sereno, que não apaga a energia dos filmes anteriores, mas a redireciona com uma maturidade inesperada. Se o riso já não vem de escorregões literais, ele ainda encontra espaço nas inadequações emocionais, nas confissões constrangedoras transmitidas ao vivo e na persistência de se tentar, mesmo sem saber por quê. É esse tipo de comicidade — frágil, tardia, resiliente — que faz de “Bridget Jones: Louca Pelo Garoto” um epílogo digno, não apenas para uma personagem, mas para uma era inteira da comédia romântica.
★★★★★★★★★★