Se você gosta de filmes medievais, pare tudo: o melhor do gênero acaba de chegar ao Prime Video — com Ben Affleck e Matt Damon no elenco Divulgação / 20th Century Studios

Se você gosta de filmes medievais, pare tudo: o melhor do gênero acaba de chegar ao Prime Video — com Ben Affleck e Matt Damon no elenco

Algumas pessoas são obrigadas a entender, desde muito cedo, que a vida não lhes reserva a genuína essência das coisas, mas só um caldo ralo e frio, temperado pela eterna ira que pontua a existência de todos nós em maior ou menor intensidade. Para esses indivíduos, afetos têm a natureza de algo que se quebrara há bastante tempo, mas que resiste, apoiando-se na areia colorida da farsa, que vai tragando e perdendo tudo. Socorrem-nos colossos que o homem de quando em quando inventa, a exemplo da filosofia, o pensamento organizado em torno das angústias que o gênero humano sempre há de sentir, passem-se dez, vinte, cem, mil anos, mas somos a um só tempo tão desgraçados e misteriosos que, mesmo todo o poder imensurável do conhecimento filosófico não é capaz de atender-nos sempre. Em sendo assim, quanto pode valer a palavra de uma mulher? Se estamos na França do século 14, como Marguerite de Carrouges (1362-1419), pouquíssimo, e a partir desse argumento Ridley Scott constrói “O Último Duelo”, outro de seus fascinantes épicos nos quais esgrime acerca de amor, amizade, honra, tudo temperado com uma dose cavalar de violência. 

O ensaísta espanhol Miguel de Unamuno (1864-1936) dissera acertadamente que a vida é esquecimento. Precisamos escolher do que queremos nos lembrar, que trechos menos felizes de nossa jornada temos de varrer para debaixo do tapete da memória, que circunstâncias devem ocupar em nós um quinhão privilegiado de nossas vivências. Baseado em “O Último Duelo: Uma História Real de Crime, Escândalo e Julgamento por Combate na França Medieval” (2004), de Eric Jager, o roteiro de Ben Affleck, Matt Damon e Nicole Holofcener chega à vida trágica de Marguerite de Carrouges (1362-1419), uma nobre francesa que parecia viver um conto de fadas.

Mais uma vez, a parceria entre Affleck e Damon, merecidamente consagrada em “Gênio Indomável” (1997), de Gus Van Sant, abre profundos sulcos num terreno endurecido pela bruma do tempo ao desvendar aspectos poucos conhecidos da vida de Marguerite, casada aos dezoito anos com Jean de Carrouges (1330-1396), um cavaleiro francês famoso na Normandia por seu tino comercial. Aos poucos, fica evidente que, embora se amassem, as bodas foram menos um encontro de almas que um negócio, o que leva ao argumento central, o estupro da senhora Carrouges por Jacques Le Gris (1330-1386), razão do último duelo do título.

Scott apresenta esses personagens da maneira mais didática possível, sem nunca prescindir da emoção, um elemento fundamental num enredo assim. Na pele de Carrouges e Le Gris, Damon e Adam Driver oferecem ao público um espetáculo de encher os olhos até a sequência em que um dos dois leva a pior, mas quem brilha mesmo é Jodie Comer. Sua Marguerite é a tradução perfeita da dialética da condição feminina, verdadeira maldição para muitas mulheres passados mais de seiscentos anos.

Filme: O Último Duelo
Diretor: Ridley Scott 
Ano: 2021
Gênero: Ação/Drama/Thriller
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.