O filme que passou 375 dias no Top 10 mundial está de volta à Netflix — e já é um dos mais assistidos do mundo novamente Divulgação / Sony Pictures

O filme que passou 375 dias no Top 10 mundial está de volta à Netflix — e já é um dos mais assistidos do mundo novamente

Dificilmente se poderia prever que um ator como Vin Diesel, vindo da dureza dos bastidores do cinema independente, se tornaria o rosto de algumas das franquias mais rentáveis da virada do milênio. Ainda assim, foi justamente ao encarnar figuras movidas por vingança, testosterona e motores turbinados que ele fincou seu nome no imaginário popular. Após uma fase menos expressiva na carreira, a tentativa de reerguê-la apostando em outro herói hipertecnológico o levou a “Bloodshot”, produção lançada em 2020 que reúne ecos de ficção científica distópica com os excessos visuais do novo milênio. O resultado? Um delírio digital com alma de revólver e esqueleto de silício.

O protagonista, Ray Garrison, é a materialização de uma fantasia contemporânea: o soldado indestrutível, reconstruído com nanotecnologia após ser abatido em combate. Em seu retorno ao mundo dos vivos, ele se vê não apenas turbinado por implantes cibernéticos que lhe conferem força descomunal e regeneração imediata, mas também aprisionado num sistema de controle absoluto, onde a memória é programável e a identidade se dissolve. O desejo de vingança que o move, inicialmente puro e pessoal, se embaralha à medida que ele descobre ser apenas uma peça reprogramável numa engrenagem sinistra. Assim, sua jornada sangrenta se torna também uma batalha contra a manipulação e o esquecimento — e o espectador, como ele, precisa reconstruir os fatos a cada nova revelação, como se desbravasse um labirinto de reflexos falsificados.

Guy Pearce, no papel do cientista Emil Harting, encarna a figura do arquétipo moderno do criador sem freios morais. Diferente da imagem tradicional do vilão grotesco, sua aparência sofisticada e seu verniz de racionalidade escondem um núcleo tóxico de ambição sem limites. Ao moldar Garrison conforme seus interesses, Harting não se contenta em comandar um projeto militar: ele redefine o conceito de humanidade. A sua ciência não salva, mas escraviza, apagando fronteiras entre o biológico e o artificial por conveniência mercadológica. A ética, aqui, é apenas uma variável estatística.

Embora o personagem tenha nascido nas páginas da Valiant Comics em 1992, foi apenas em 2014 que sua narrativa foi revitalizada com maior densidade pelo roteirista Duane Swierczynski. O universo criado por Jim Shooter, ex-Marvel, parecia condenado a viver nas sombras das gigantes editoras rivais, mas com “Bloodshot” a Valiant arriscou seu primeiro salto ao audiovisual. Essa tentativa de adaptação não buscou apenas reproduzir a atmosfera gráfica das HQs, mas reconfigurar seus temas centrais para dialogar com as angústias tecnológicas do século 21 — o que é lembrado, o que é plantado, o que é decidido por nós e o que já vem pré-codificado.

A produção passou por mãos experientes antes de chegar à direção de Dave Wilson, estreante no comando de longas-metragens. Mesmo assim, o resultado visual carrega marcas da estética cultivada por nomes como David Leitch e Chad Stahelski: cenas aceleradas, efeitos estilizados ao limite e um apelo visual que beira o videoclipe distorcido. Lançado em um momento infeliz — logo no início da pandemia de Covid-19, que interditou cinemas no mundo inteiro — o filme viu seu desempenho ser tragado pela crise global. O timing cruel não impediu, contudo, que a obra ganhasse sobrevida no circuito digital, onde sua linguagem hiperveloz parecia se adequar melhor à lógica do streaming.

Nas cenas mais ousadas, o corpo de Bloodshot se fragmenta em partículas diante dos olhos do espectador, apenas para se recompor em segundos. Essa visualidade, que remete tanto a “Matrix” quanto ao universo metálico de “O Exterminador do Futuro”, atualiza um imaginário antigo sobre o corpo como campo de batalha entre carne e máquina. O filme também não esconde suas referências a “Robocop” e “Soldado Universal”, compondo um mosaico de citações que vão da homenagem à atualização crítica. Contudo, o maior paralelo, em termos narrativos, é com “Blade Runner”: a questão da consciência, da identidade e da obsolescência da vida construída artificialmente paira sobre o protagonista como uma névoa permanente.

A construção estética do longa recorre a ambientes assépticos, minimalistas e controlados, onde cada superfície parece calibrada para refletir não só luz, mas também a impessoalidade do sistema que controla o herói. A violência gráfica, estilizada e incessante, serve não apenas ao espetáculo, mas como ilustração do tormento de um corpo que já não pertence a si. Há, ali, um lamento silencioso entre as explosões: o da criatura que descobre que seu livre-arbítrio foi um código implantado.

Com um elenco que inclui Lamorne Morris, Eiza González e Sam Heughan, “Bloodshot” se apresenta como mais do que um desfile de efeitos: é um estudo sobre a dissolução do humano diante da tecnologia, e sobre como a dor — física ou emocional — pode ser instrumentalizada por sistemas que lucram com a ilusão da liberdade. Ao final, resta uma pergunta incômoda: quando tudo em você pode ser reprogramado, o que ainda pertence à sua história?

Filme: Bloodshot
Diretor: Dave Wilson
Ano: 2020
Gênero: Ação/Ficção Científica
Avaliação: 6/10 1 1
★★★★★★★★★★