Se ser adulto é estar só, como bem disse o filósofo francês Jean Rostand (1894-1977), o homem encontra depressa um antídoto que o deixa um pouco menos vulnerável à abulia que essa solidão traz. Há os que encontram conforto na família, na religião, nos prazeres da carne, todos esses remédios eficazes em alguma medida e inócuos em outra. Da mesma forma, a carreira é um jeito de se manter ocupado e de conservar os problemas longe; todavia, por mais bem-sucedido que se seja, também o empenho à vida profissional tem suas limitações e tropeços. O esporte é uma metáfora perfeita para se discorrer a respeito da finitude, primeiro da glória, depois da própria natureza humana, como tenta fazer Chris Robinson em “Shooting Stars”.
Quem vê jogadores dispostos num campo de futebol ou numa quadra de basquete, disputando lances impossíveis a um simples mortal, encarniçados nos rivais até que saia aquele gol de placa ou a cesta de três pontos feita nos estertores dos últimos segundos capaz de definir uma partida, raramente se dá conta de que aquele espetáculo tem hora certa para acabar, e não se trata do fim do jogo ou mesmo do campeonato. Embora pareça não fazer questão, o filme de Robinson é mais que uma cinebiografia de LeBron James, um dos astros da NBA, a liga de basquete profissional dos Estados Unidos. Baseado na biografia homônima de 2009 escrita por Buzz Bissinger e pelo próprio James, o bom roteiro de Frank E. Flowers, Tony Rettenmaier e Juel Taylor consegue ir além do óbvio ao recapitular também a vida dos garotos que começaram junto com ele, num passeio narrativo por sonhos, desilusões, perseverança, triunfo de uns e derrota de muitos.
Desde cedo, atletas sabem que sua jornada é mais curta que a dos demais. De um dia para o outro, não se consegue a mesma performance em atividades que antes se obtinha com um pé nas costas. Essa sensação por si só já seria o bastante para arruinar a vida de muitos, gente perdida no labirinto de vaidade construído no terreno arenoso do tempo, que traga tudo para si e deixa apenas o gosto amargo da desilusão. Os que despertam de seu transe egocêntrico com alguma brevidade percebem que há que se tomar rápido uma atitude quanto a conter os impulsos de autodestruição, disfarçados sob o manto roto da autoconfiança, descobrir novos interesses e, enfim, reinventar-se.
“Shooting Stars” volta à infância de James num bairro operário de Akron, Ohio, em cujas quadras encontrava-se com Sian Cotton, Willie McGee e Dru Joyce 3º, os autodenominados Fab Four. Depois de uma ou outra pelada despretensiosa, os quatro fabulosos reúnem-se no porão de Dru 3º para jogar videogame e fazer planos mirabolantes sobre o futuro, cada qual puxando a brasa para a sua sardinha ao gargantear suas habilidades com a bola laranja. O filho do treinador Dru Joyce 2º é o verdadeiro espírito do longa, um garoto tão mirrado quanto valente que serve de apoio moral para os três amigos e, claro, também para James, que costuma atentar para seus conselhos e recomendações.
O diretor resolve conduzir o enredo pela dialética que não tarda a aparecer entre a ambição legítima de James e a serena generosidade de Dru 3º, firmando esse momento na mudança da John R. Buchtel, a escola pública sem recursos, mas querida pela comunidade onde eles jogavam, para St. Vincent — St. Mary, uma instituição católica abastada e composta majoritariamente por brancos. O próprio Dru vai ao encontro de Keith Dambrot, o treinador da nova escola vivido por Dermot Mulroney, e o resto é história. A forma como Robinson faz “Shooting Stars” oscilar entre a tal “ânsia de ter e o tédio de possuir” schopenhaueriano, expressos por James e Dru, respectivamente, é o pulo do gato aqui. Sem artificialismos, Marquis Mookie Cook e Caleb McLaughlin dividem a trama entre um registro biográfico que interessa mais a aficionados por esporte e a pequena saga de bravos garotos que perseguem seu destino, embora saibam que nem todos poderão de fato chegar lá.
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