Pouco se tem dito sobre a vocação que certos atores desenvolvem para os papéis que os desalinham do que convencionamos chamar de estabilidade emocional. Nicole Kidman, desde sua assombrosa performance como Virginia Woolf em “As Horas”, parece ter firmado pacto com essa vertigem: a de escavar, com apetite errático, os abismos de figuras que oscilam entre a fragilidade e a combustão interna. Na pele da escritora inglesa, atingiu uma intensidade quase inverossímil — ali, o gesto era contenção, e o rosto, um campo de batalha silenciosa. Mas essa mesma atriz, capaz de hipnotizar pela contenção do olhar, também tropeça quando o texto a abandona, como se dependesse do brilho alheio para acender o próprio. Os descompassos de “Reencarnação” ou a tentativa pueril de “A Feiticeira” expõem esse risco: o de uma intérprete que, quando desamparada pelo roteiro, se vê às voltas com um talento que não se basta. Essa tensão reaparece em “Holland”, onde Mimi Cave investe mais em criar atmosferas que em estruturar qualquer tipo de consequência dramática — e assim, esteticiza a deriva.
A protagonista, Nancy Vandergroot, vive em uma bolha de símbolos que escorregam entre o folclore e o devaneio: uma professora envolta por tulipas, preparando paradas que reverenciam colonizadores holandeses em uma cidade que parece mais metonímia do que lugar. A ambientação quase caricatural ganha camadas paradoxais pelo roteiro de Andrew Sodroski, que trafega entre o encantamento de um postal e a inquietação de uma fábula sem eixo. O exagero nos traços culturais — trens, trajes típicos, moinhos — não opera só como enfeite, mas como sintoma: de uma comunidade que se apega a signos porque teme olhar o vazio por trás deles. Nancy vive cercada por um cenário saturado de significados herdados, mas não parece habitá-lo de fato. A casa, o marido, o filho, o jardim — tudo sugere estabilidade, embora nada ali resista a um leve empurrão. E quando esse empurrão acontece, não é um vendaval que despenca, mas uma corrente de pequenas fissuras.
A primeira rachadura vem na forma de um brinco desaparecido, mas a perda material não é o que desestabiliza: é o que ela revela. Nancy começa a suspeitar da babá, mas logo o foco se desloca — é o marido quem parece esconder algo mais grave. A desconfiança se materializa numa passagem de ônibus, uma mentira mínima, quase infantil, mas que abre caminho para o colapso de toda a encenação doméstica. Cave insere então um personagem do passado, Dave Delgado, que, mais do que um reencontro, funciona como dissonância afetiva. Interpretado por Gael García Bernal em registro pouco convincente, ele simboliza a promessa nunca cumprida, a nostalgia do que poderia ter sido, mas que se frustrou antes mesmo de começar. Dave não oferece refúgio — oferece contraste, e por isso, talvez, intensifique o desequilíbrio. Kidman parece querer nos convencer de que Nancy está em ruína, mas a narrativa não lhe oferece gravidade suficiente para que essa ruína tenha peso.
Há, por parte da direção, um desejo claro de ornamentar o desalinho. A fotografia de Pawel Pogorzelski embeleza o que deveria inquietar, como se a estética pudesse substituir a densidade. A montagem de Martin Pensa contribui para esse efeito de verniz, criando pausas, elipses e respiros que soam coreografados demais para que o espectador se engaje emocionalmente. Em vez de mergulhar nas camadas inconscientes da personagem, o filme parece interessado em disfarçá-las. Quando Matthew Macfadyen, já no final, começa a delinear as zonas mais obscuras de Fred, é tarde demais: a narrativa já se esquivou das possibilidades mais provocadoras. Os personagens são instáveis, mas o filme insiste em torná-los legíveis, como se temesse perder o controle. E assim, o que poderia ser uma exploração desconfortável de identidades em ruína se acomoda como exercício de estilo.
Em seus 108 minutos, “Holland” quer sugerir uma inquietação subterrânea, mas recua sempre que ela ameaça eclodir. Resta, então, o paradoxo: um filme que trata de personagens indecifráveis sem ter coragem de enfrentá-los de fato. Há beleza, sem dúvida; há performances que, aqui e ali, roçam a potência. Mas a inquietude que o longa insinua — essa sensação de estar deslocado até dentro da própria casa — não se realiza com a profundidade que o tema exigiria. É como se o projeto estivesse menos interessado em compreender suas figuras do que em mantê-las dentro de molduras atraentes. Nancy Vandergroot, entre tulipas, trens e memórias borradas, acaba sintetizando a impressão final do espectador: a de alguém que caminha entre símbolos, mas que, ao fim, não encontra linguagem capaz de nomear o próprio desassossego.
★★★★★★★★★★