Thriller de tribunal que é uma aula de direito, na Netflix Divulgação / Dreamworks Pictures

Thriller de tribunal que é uma aula de direito, na Netflix

O abismo entre a ganância corporativa e a segurança pública raramente é tão evidente quanto nas histórias que, ao serem reveladas, mostram o cálculo frio por trás de decisões que comprometem vidas humanas. “O Preço da Verdade” não se contenta em apenas expor um escândalo industrial; ele constrói, com meticulosidade, a atmosfera sufocante de um sistema onde regulações existem mais como fachada do que como mecanismo de proteção. O filme não apenas denuncia um crime ambiental de proporções incalculáveis, mas obriga o espectador a encarar o impacto silencioso de substâncias tóxicas que já fazem parte de sua rotina.

A estrutura da narrativa segue um percurso desconcertante: o advogado que deveria estar do lado da indústria se vê compelido a desafiar o pilar que sustenta a própria comunidade onde cresceu. Mark Ruffalo interpreta esse protagonista sem qualquer glamour heroico, mas com um desgaste crescente que traduz perfeitamente o peso da verdade que carrega. Ao contrário dos clichês tradicionais de thrillers judiciais, aqui não há reviravoltas que concedam fôlego ao espectador. O horror se constrói de forma gradual, não pelo que é revelado de imediato, mas pelo que vai se acumulando até tornar-se insuportável.

Diferente de filmes que romantizam a luta do pequeno contra o gigante, “O Preço da Verdade” escapa da armadilha de tornar a batalha uma saga de vitória contra probabilidades impossíveis. A grande indústria que envenenou comunidades inteiras nunca precisou correr, nunca precisou esconder seus rastros de forma cuidadosa. O verdadeiro impacto do longa está na percepção de que, durante anos, nada foi feito porque ninguém queria enfrentar uma verdade inconveniente. O sistema que deveria proteger falhou não por desconhecimento, mas por conivência deliberada.

A direção de Todd Haynes surpreende pelo grau de contenção. Conhecido por um cinema estilizado e repleto de assinatura visual, aqui ele opta por um realismo seco, sem qualquer embelezamento. Essa abordagem se justifica: o filme não quer distrair, quer prender o espectador em sua angústia inescapável. A fotografia dessaturada e os ambientes soturnos reforçam a ideia de que não estamos apenas diante de uma batalha judicial, mas de um desgaste mental e físico que corrói lentamente aqueles que ousam desafiar a impunidade.

No elenco, Anne Hathaway recebe um papel que poderia oferecer mais camadas, mas acaba reduzido ao arquétipo da esposa que observa a erosão emocional do marido sem grande agência própria. Já Tim Robbins e Bill Pullman surgem como presenças que elevam a credibilidade do drama, enquanto Ruffalo se destaca pela maneira como traduz, em gestos e silências, o esgotamento físico e moral de seu personagem. Ele não é um combatente vibrante, mas um homem que parece se arrastar por um campo de batalha onde o inimigo sequer precisa contra-atacar.

Se “O Preço da Verdade” evoca paralelos com “Erin Brockovich: Uma Mulher de Talento” ou “Silkwood: O Retrato de uma Coragem”, a diferença crucial é a ausência de catarse. Não há um ponto de virada que restitua a fé do espectador na justiça. Pelo contrário, a narrativa expõe o cínico mecanismo de desgaste ao qual aqueles que desafiam o status quo são submetidos. Cada pequena vitória é seguida por uma nova barreira, cada revelação se dissolve na lentidão burocrática.

O verdadeiro terror do filme não está no que foi feito no passado, mas no que continua acontecendo. Se há duas décadas as evidências eram tratadas com descrédito, hoje estão amplamente documentadas. E, ainda assim, a indiferença persiste. “O Preço da Verdade” não se limita a um relato histórico, mas se transforma em uma interrogação incômoda: até onde estamos dispostos a ir para confrontar verdades que nos cercam, mas que preferimos ignorar?

Filme: O Preço da Verdade
Diretor: Todd Haynes
Ano: 2019
Gênero: Biografia/Drama/História/Mistério
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★