Inspirado em Crime e Castigo, de Dostoiévski, filme com Scarlett Johansson é uma das obras-primas escondidas do Prime Video Divulgação / Dreamworks Pictures

Inspirado em Crime e Castigo, de Dostoiévski, filme com Scarlett Johansson é uma das obras-primas escondidas do Prime Video

Na superfície serena de um drama urbano de aparências polidas, Woody Allen plantou uma granada filosófica com o pino solto. Quem espera dele apenas ironias neuróticas e casamentos em ruínas mal percebe quando o diretor troca Nova York pelo Velho Mundo, levando na bagagem não só seu pessimismo habitual, mas também uma inquietação ética mais radical. “Match Point”, filmado em Londres, é um desses momentos em que o cineasta se despe do verniz cômico e mergulha num thriller moral em que a sorte não é só um dado jogado no escuro — é o próprio enredo. Trata-se de um filme que não apenas observa a decadência do protagonista; ele testa, cena a cena, o quanto estamos dispostos a aceitar o triunfo da dissimulação sobre qualquer resquício de culpa.

Chris Wilton, ex-tenista e atual instrutor da elite britânica, parece alguém em busca de paz. Mas essa tranquilidade aparente é apenas o disfarce de uma fome silenciosa, que logo encontra eco no círculo aristocrático ao qual ele tenta se infiltrar. Através de relações estratégicas — e não necessariamente autênticas — ele se aproxima de Chloe, jovem entediada da alta sociedade que vê nele uma promessa de estabilidade afetiva. Mas o desejo, esse agente corrosivo das narrativas morais, entra em cena por meio de Nola Rice, aspirante a atriz e noiva do melhor amigo de Chris. Nola não é apenas o outro vértice de um triângulo; ela é a falha sísmica que desloca todo o terreno sob os pés do protagonista.

O romance clandestino entre Chris e Nola não se limita ao cliché da traição. Ele serve de catalisador para a pergunta central do filme: o que vale mais — manter a fachada socialmente aceitável ou ceder aos impulsos que podem aniquilar essa mesma estrutura? Allen encena essa tensão com precisão quase cirúrgica, e insere o espectador em um labirinto onde cada escolha parece amoral e cada caminho é um beco sem saída ético. A referência a Dostoiévski não é gratuita: o cineasta revisita o terreno sombrio de “Crime e Castigo” e o reconstrói à luz de um mundo onde a punição deixou de ser uma certeza divina para tornar-se apenas uma questão de azar estatístico.

O que diferencia “Match Point” de outras narrativas sobre ascensão social ou relações extraconjugais é sua recusa em oferecer qualquer tipo de redenção. Allen não tem interesse em consolar o espectador com dilemas morais fáceis. Pelo contrário, seu cinema se alimenta do desconforto de perceber que, às vezes, a vida recompensa os piores instintos com o mais improvável dos prêmios: a impunidade. E se esse acaso que protege o vilão parece uma provocação, é porque realmente é. O filme parece perguntar o tempo todo se ainda somos capazes de reconhecer a gravidade do que é imperdoável — ou se, como Chris, aprendemos a ocultar o remorso com a mesma elegância com que se troca de roupa para um jantar.

Essa recusa a entregar soluções morais, aliada ao rigor na construção de personagens cujo destino nunca é determinado por princípios éticos, mas por conveniências e acidentes, faz de “Match Point” uma das peças mais perturbadoras do repertório de Allen. Nada é gratuito: nem o figurino impecável, nem a trilha sonora erudita, nem os planos minuciosos de uma Londres menos turística e mais claustrofóbica. Tudo serve à ideia de que a civilização, com sua etiqueta e seus teatros de comportamento, pode muito bem ser o palco perfeito para as mais brutais formas de egoísmo.

Não há catarse. Não há lição. Mas há a cruel possibilidade de que, talvez, o mal possa vencer — não por força ou crueldade, mas por mero capricho do destino. Nesse sentido, Woody Allen parece não apenas dialogar com Dostoiévski, mas atualizá-lo: se o escritor russo ainda acreditava na expiação pelo sofrimento, o cineasta norte-americano sugere que, neste mundo domesticado e estetizado, nem mesmo o peso da culpa é garantido. E talvez o que há de mais inquietante em “Match Point” seja isso: a constatação de que o acaso, e não a justiça, detém a palavra final.

Filme: Ponto Final — Match Point
Diretor: Woody Allen
Ano: 2005
Gênero: Drama/Romance
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★