Com Johnny Depp, a obra-prima que consagrou Tim Burton e lotou cinemas em mais de 150 países acaba de chegar à Netflix Divulgação / Paramount Pictures

Com Johnny Depp, a obra-prima que consagrou Tim Burton e lotou cinemas em mais de 150 países acaba de chegar à Netflix

Uma série de crimes misteriosos toma vulto em 1799: cadáveres começam a surgir decapitados nas ruas de Nova Iorque. O único capaz de resolver o caso é o detetive Ichabod Crane, um policial excêntrico e obstinado, que se destaca por apresentar um método de trabalho bastante peculiar. Crane suspeita que o culpado pelo banho de sangue seja uma criatura sobrenatural, contra a qual ainda não sabe se seus talentos investigativos serão de alguma serventia. Em “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” estão presentes todos os elementos característicos das histórias de terror que fizeram de Tim Burton uma verdadeira grife.

E aqui não é diferente. Casarões funestos, névoa densa, sepulturas com lápides de pedra, carruagens soturnas e a pesada indumentária do século 18 compõem a atmosfera de um filme que poderia contentar-se em reproduzir padrões, mas que ultrapassa  expectativas e ousa em detalhes que provam mais uma vez que se está diante de algo sublime. Os roteiristas Andrew Kevin Walker e Kevin Yagher fazem do conto “The Legend of Sleepy Hollow” (1820), de Washington Irving (1783-1859), a inspiração para uma narrativa muito mais impactante, num espetáculo de lirismo, bom gosto e beleza.

Crane viaja de Nova York para Sleepy Hollow, no condado de Westchester, ao norte de Manhattan,  e Burton aproveita cada lance para enfeitiçar o público com o cenário que garantiu a Rick Heinrichs e Peter Young Oscar de Melhor Direção de Arte. O diretor prende quem assiste pelos olhos, e a fotografia de Emmanuel Lubezki faz sua parte no que se refere a manter o fascínio do público enquanto o protagonista não coloca a mão na massa.

Começa-se a duvidar que a tal Sleepy Hollow eternizada por Irving exista mesmo, que se esteja diante de um assombroso delírio coletivo, mas quem se importa? Mais uma vez, Burton sabe muito bem como valer-se dos anseios da plateia a fim de compor uma trama muito acima da média, e o elenco entra nessa equação aos poucos, mas com firmeza. Quando chega, afinal, Crane verifica que os corpos aumentam sem que as cabeças acompanhem a contagem, a marca indelével da perversão do assassino, que as leva de volta para o inferno, segundo moradores como Baltus van Tassel, de Michael Gambon, o mais rico e o mais astuto deles. 

“A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” desvia-se do terror e envereda por um estimulante romance psicológico ao debruçar-se sobre o cotidiano dessas figuras entre exóticas e lúgubres, mirando Katrina, a jovem filha de Van Tassel, especialmente deslocada no vilarejo. Essa alma boa à espera de qualquer coisa que a faça sentir-se viva chama a atenção de Crane, e o filme segue por um caminho ainda mais insólito ao sugerir o envolvimento dos dois, sem perder a meada do fantasmagórico e do irrealismo, conforme também acontece, guardadas as proporções, em “Beetlejuice: Os Fantasmas Se Divertem” (1988), o clássico da comédia macabra de Burton. A performance de Christina Ricci complementa a interpretação de Johnny Depp, notoriamente reconhecido pela habilidade de sumir para que seus personagens cresçam. Por falar em sumir, o ator que encarna o Cavaleiro nas sequências em que ele ainda possui uma cabeça para chamar de sua é outra das gratas surpresas que Burton nos oferece.

Filme: A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça
Diretor: Tim Burton 
Ano: 1999
Gênero: Fantasia/Terror
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.