Para que uma ambição ultrapasse o estágio de devaneio, ela precisa ser submetida a um processo rigoroso de codificação: predicados claros, objetivos dissimulados sob estratégias milimetricamente calculadas e uma disposição inesgotável para rituais de abnegação seletiva. O poder, longe de ser um dom, é um território conquistado à base de transações com o inominável — e não raro, com o próprio espelho. Os que se arriscam nesse tabuleiro dominado por alianças improváveis e renúncias performáticas sabem que a ética, quando não é ignorada, é reconfigurada conforme os ventos. Por trás da fachada de bravura e convicção, há quase sempre uma fome silenciosa de compensar carências intelectuais com fogos de artifício bélicos.
É a partir desse arcabouço ambíguo que Zhang Yimou se apropria de um dos símbolos mais emblemáticos da civilização chinesa para criar uma narrativa que flerta com o épico e o absurdo, com igual entusiasmo. “A Grande Muralha” (2016), concebido sob a lógica de uma coprodução que busca fundir expectativas orientais e ocidentais, não se limita à pirotecnia visual: ele simula, inadvertidamente ou não, uma crítica ao fetiche pela dominação. A premissa — uma ameaça monstruosa que se repete a cada seis décadas — importa menos do que a coreografia de poder travestida de guerra justa. O monstro é alegoria: o que está em disputa não é a sobrevivência da muralha, mas o protagonismo sobre quem pode — ou deve — protegê-la.
O núcleo da trama desloca-se, com desconcertante rapidez, para dois mercenários europeus que tropeçam em uma criatura pré-histórica e, por isso, são levados a um reduto milenar chinês onde a pólvora, ainda restrita ao seu berço cultural, se transforma em objeto de cobiça. A partir daí, o dilema moral se dissolve: o discurso de defesa da tradição é atropelado pela lógica do saque. E se o mercenário William Garin (Matt Damon) recebe um arco de redenção, não é por um despertar de consciência, mas porque o roteiro o autoriza a tornar-se mais do que estrangeiro — ele é rebatizado como imprescindível. Sua trajetória é a de um colonizador disfarçado de herói relutante.
A estética cuidadosamente pensada — marcada pelo contraste entre o brilho artificial das criaturas digitais e a sobriedade cinzenta dos cenários — contribui para a ilusão de profundidade. A exuberância das feras concebidas por Andrew Baker e os enquadramentos pictóricos de Dryburgh e Xiaoding Zhao são esforços técnicos que sustentam a ilusão de grandiosidade, mas não conseguem eclipsar a dissonância narrativa. O impulso de transformar Garin em um messias ocidental, condutor do povo chinês rumo à salvação, desorganiza qualquer tentativa de equilíbrio simbólico. Mesmo a presença da general Lin Mae, interpretada com firmeza por Jing Tian, é relegada ao papel de coadjuvante da epifania masculina, ainda que o texto insista em pintá-la como liderança plena.
O desconforto cresce à medida que o enredo tenta equilibrar didatismo estratégico com a promessa de um romance insinuado, mas jamais realizado. A presença de Lin Mae não emancipa o discurso: ela o reforça, ao ser moldada pelas interações com o forasteiro. A tensão entre culturas é reconfigurada como aprendizado, mas é sempre o chinês que aprende — e o europeu que ensina. O subtexto não reside na ameaça externa dos Tei Taos, e sim na domesticação da alteridade sob o pretexto da colaboração. O filme, ao negar a possibilidade de uma guerra vencida sem interferência estrangeira, expõe a fragilidade do pacto de igualdade que pretende dramatizar.
A coprodução sino-americana, no fim das contas, assume um lugar desconfortável entre a vitrine de efeitos especiais e o espelho de uma geopolítica enviesada. O que poderia ser uma revisão simbólica das forças de resistência se converte em apologia ao heroísmo importado, com verniz de exotismo e textura de conveniência. As explosões, os voos coreografados e o aparato visual não são suficientes para disfarçar que, por trás da muralha, o que se ergue é a velha estrutura de dominação em nova embalagem. O espetáculo permanece, mas o que ele deixa ecoar é a repetição do erro: travestir protagonismo de parceria, e conquista de auxílio.
★★★★★★★★★★