A entrevista que virou um dos maiores fiascos da televisão — filme dramatiza bastidores, na Netflix Peter Mountain / Netflix

A entrevista que virou um dos maiores fiascos da televisão — filme dramatiza bastidores, na Netflix

Entre os marcos do jornalismo contemporâneo, poucos episódios se comparam ao desastre televisivo protagonizado pelo príncipe Andrew em sua entrevista ao BBC Newsnight. “A Grande Entrevista”, dirigido por Philip Martin e inspirado no livro “Scoops”, de Sam McAlister, transforma esse colapso público em um drama envolvente sobre estratégia, ingenuidade e poder. O filme não se contenta em apenas reconstituir a entrevista — ele a disseca, explorando os bastidores da negociação e expondo a fragilidade de uma monarquia diante de um de seus momentos mais constrangedores.

Desde a abertura, com uma fotografia capturando Andrew ao lado de Jeffrey Epstein em 2010, a produção estabelece um caminho inevitável rumo à derrocada do duque de York. A trama alterna entre dois eixos narrativos complementares: de um lado, McAlister (Billie Piper) enfrenta desafios para garantir o furo jornalístico, navegando entre os receios e a vaidade da comitiva real; do outro, o filme se concentra no próprio encontro televisionado, cuja reconstituição minuciosa revela a autodestruição gradual do príncipe. É uma crônica sobre como o excesso de confiança pode transformar um homem poderoso em sua pior ameaça.

Rufus Sewell encarna Andrew com precisão assustadora, conferindo ao personagem uma altivez deslocada, como se estivesse alheio à gravidade de suas palavras. Em uma das falas mais absurdas, ele tenta justificar a impossibilidade de ter suado devido a uma suposta condição médica — um detalhe que sintetiza sua desconexão da realidade. Ao seu lado, Gillian Anderson entrega uma interpretação milimetricamente controlada como Emily Maitlis, a entrevistadora que, com expressões sutis, traduz a perplexidade crescente diante do espetáculo de autossabotagem. Seu desempenho ecoa o rigor que imprimiu ao retratar Margaret Thatcher em “The Crown”, demonstrando a mesma habilidade de capturar nuances por trás de uma postura calculada.

Embora o roteiro acerte ao construir a tensão crescente entre jornalista e entrevistado, a caracterização de McAlister poderia ter sido mais desenvolvida. Billie Piper consegue transmitir sua astúcia e perseverança, mas o texto não explora totalmente o carisma e a ironia da verdadeira produtora. A decisão de suavizar certas dinâmicas do palácio também restringe a complexidade do enredo, especialmente ao evitar aprofundar as consequências políticas dentro da família real. Pequenos detalhes — como a omissão da identidade do remetente de uma mensagem recebida por Andrew logo após a entrevista — teriam enriquecido ainda mais o subtexto sobre sua relação com a rainha.

O que torna “A Grande Entrevista” verdadeiramente instigante é sua capacidade de ir além de uma mera reconstituição de um desastre midiático. O filme funciona como um estudo sobre o poder da imprensa e sua capacidade de expor, com precisão cirúrgica, a ruína de uma figura pública. A cena em que Andrew insiste que sua mãe “confia em seu julgamento” levanta um questionamento sutil, porém provocador: a monarca permitiu a entrevista sabendo do impacto devastador que teria, ou realmente acreditava no discernimento do filho? Qualquer que seja a resposta, o resultado foi um vexame histórico que selou seu destino.

Mesmo para aqueles que já conhecem o desfecho, “A Grande Entrevista” mantém o interesse ao revelar os mecanismos internos que transformaram um simples furo jornalístico em um evento icônico. Com uma recepção de 76% no Rotten Tomatoes, o filme se consolida como um retrato fascinante dos bastidores do poder e das armadilhas da vaidade. Mais do que narrar a queda de um príncipe, a produção ilumina a precisão implacável do jornalismo quando encontra uma história que simplesmente não pode ser ignorada.

Filme: A Grande Entrevista
Diretor: Philip Martin
Ano: 2024
Gênero: Biografia/Drama
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★