Entre os marcos do jornalismo contemporâneo, poucos episódios se comparam ao desastre televisivo protagonizado pelo príncipe Andrew em sua entrevista ao BBC Newsnight. “A Grande Entrevista”, dirigido por Philip Martin e inspirado no livro “Scoops”, de Sam McAlister, transforma esse colapso público em um drama envolvente sobre estratégia, ingenuidade e poder. O filme não se contenta em apenas reconstituir a entrevista — ele a disseca, explorando os bastidores da negociação e expondo a fragilidade de uma monarquia diante de um de seus momentos mais constrangedores.
Desde a abertura, com uma fotografia capturando Andrew ao lado de Jeffrey Epstein em 2010, a produção estabelece um caminho inevitável rumo à derrocada do duque de York. A trama alterna entre dois eixos narrativos complementares: de um lado, McAlister (Billie Piper) enfrenta desafios para garantir o furo jornalístico, navegando entre os receios e a vaidade da comitiva real; do outro, o filme se concentra no próprio encontro televisionado, cuja reconstituição minuciosa revela a autodestruição gradual do príncipe. É uma crônica sobre como o excesso de confiança pode transformar um homem poderoso em sua pior ameaça.
Rufus Sewell encarna Andrew com precisão assustadora, conferindo ao personagem uma altivez deslocada, como se estivesse alheio à gravidade de suas palavras. Em uma das falas mais absurdas, ele tenta justificar a impossibilidade de ter suado devido a uma suposta condição médica — um detalhe que sintetiza sua desconexão da realidade. Ao seu lado, Gillian Anderson entrega uma interpretação milimetricamente controlada como Emily Maitlis, a entrevistadora que, com expressões sutis, traduz a perplexidade crescente diante do espetáculo de autossabotagem. Seu desempenho ecoa o rigor que imprimiu ao retratar Margaret Thatcher em “The Crown”, demonstrando a mesma habilidade de capturar nuances por trás de uma postura calculada.
Embora o roteiro acerte ao construir a tensão crescente entre jornalista e entrevistado, a caracterização de McAlister poderia ter sido mais desenvolvida. Billie Piper consegue transmitir sua astúcia e perseverança, mas o texto não explora totalmente o carisma e a ironia da verdadeira produtora. A decisão de suavizar certas dinâmicas do palácio também restringe a complexidade do enredo, especialmente ao evitar aprofundar as consequências políticas dentro da família real. Pequenos detalhes — como a omissão da identidade do remetente de uma mensagem recebida por Andrew logo após a entrevista — teriam enriquecido ainda mais o subtexto sobre sua relação com a rainha.
O que torna “A Grande Entrevista” verdadeiramente instigante é sua capacidade de ir além de uma mera reconstituição de um desastre midiático. O filme funciona como um estudo sobre o poder da imprensa e sua capacidade de expor, com precisão cirúrgica, a ruína de uma figura pública. A cena em que Andrew insiste que sua mãe “confia em seu julgamento” levanta um questionamento sutil, porém provocador: a monarca permitiu a entrevista sabendo do impacto devastador que teria, ou realmente acreditava no discernimento do filho? Qualquer que seja a resposta, o resultado foi um vexame histórico que selou seu destino.
Mesmo para aqueles que já conhecem o desfecho, “A Grande Entrevista” mantém o interesse ao revelar os mecanismos internos que transformaram um simples furo jornalístico em um evento icônico. Com uma recepção de 76% no Rotten Tomatoes, o filme se consolida como um retrato fascinante dos bastidores do poder e das armadilhas da vaidade. Mais do que narrar a queda de um príncipe, a produção ilumina a precisão implacável do jornalismo quando encontra uma história que simplesmente não pode ser ignorada.
★★★★★★★★★★