Diante do enigma da permanência, o suicídio desponta — nas palavras de Émile Durkheim — como a mais essencial das interrogações existenciais. Longe de ser uma evasão simplista, trata-se de um divisor ético, um espelho invertido que devolve ao homem a urgência de enfrentar seus abismos sem ceder à tentação de se dissolver neles. Persistir, apesar do peso da finitude e das tormentas emocionais que coalham o cotidiano, é converter a vulnerabilidade em outro tipo de substância: não a virtude elevada, mas uma espécie de dignidade não heroica que se recusa a capitular. Essa resistência é o que torna o gesto de Robinson Crusoé emblemático: há algo de profundamente íntimo na obstinação do náufrago, como se ele encarnasse a recusa obstinada de se render à ausência de sentido — ou à ausência de outro.
Há, desde o princípio da consciência, uma cobrança silenciosa que exige do ser humano um pedágio para cada desejo. Nenhum gozo vem sem seu custo, e o que o mundo oferece em deleite, retira com juros em forma de ausência, insatisfação e remorso. Viver é pagar com pequenas mortes pela ilusão de plenitude. O prazer é efêmero, mas a marca da perda é permanente, como um carvão ainda quente sobre o corpo do tempo. Não há escapatória possível, nem mesmo na ideia de redenção futura: mesmo na promessa de um além, o homem seria ainda cobrado por aquilo que não soube conter ou escolher. O paraíso, quando prometido, é mais uma sentença do que um alívio. Dentro desse quadro de angústia que transcende o plano material, a jornada de Crusoé — que mata, foge e naufraga — ressoa não como aventura, mas como o preço elevado de uma existência que se arrasta entre dívidas morais e instintos de autopreservação.
Quando a narrativa apresenta Crusoé, ela o isola, mas também o obriga a construir-se. A tragédia não o define apenas como vítima: ela exige reinvenção. Depois do naufrágio, cada gesto seu carrega o peso de um reinício, como se cada ferramenta improvisada, cada abrigo rudimentar, cada palavra repetida no silêncio da ilha, fosse um modo de se inscrever de novo no mundo — agora sem as muletas da civilização. Ele não é um exilado da sociedade, mas alguém que, ao ser despojado dela, precisa reinventar os termos da própria humanidade. A solidão o empurra à lucidez ou à loucura, e é justamente nesse limiar que sua figura adquire espessura. Não é o evento do naufrágio que importa, mas o modo como ele transforma o náufrago.
Na adaptação de Rod Hardy e George T. Miller, a ênfase desloca-se do conflito metafísico para uma relação mais tangível: a parceria entre Crusoé e Sexta-Feira. Aqui, o foco não está na denúncia das estruturas coloniais que atravessam a obra original de Defoe, mas na tentativa — talvez ingênua, talvez estratégica — de ressignificar o encontro entre o europeu e o “outro” como experiência de aprendizado mútuo. A presença de Sexta-Feira desarma preconceitos e, por mais que a leitura política seja atenuada, a dimensão humana se expande. A ilha, nesse recorte, deixa de ser apenas castigo ou provação e passa a ser espaço de troca, de alteridade, de reeducação afetiva. A solidão de Crusoé é preenchida não por uma civilização recriada, mas por uma relação que a desafia.
Tracy Keenan Wynn e Christopher Lofton optam por recortar o mito de Crusoé com uma tesoura pop, afastando-se dos dilemas históricos e mergulhando em uma versão mais acessível — porém não necessariamente superficial — da história. A escolha pode parecer perda à primeira vista, mas há um ganho na sutileza emocional, na forma como o vínculo entre os dois homens se constrói por gestos mínimos e silêncios compartilhados. Pierce Brosnan e William Takaku não apenas interpretam, mas encarnam o paradoxo de um mundo que se recompõe na ausência de regras estabelecidas. É uma espécie de utopia improvisada, frágil e bela, em que os traumas pessoais contam mais que os discursos ideológicos.
É provável que puristas da literatura prefiram a leitura mais sombria e alegórica de Luis Buñuel, mas a versão de 1997 tem o mérito de compreender o mito sob uma lente que, embora mais branda, ainda carrega inquietações profundas. Recontar Crusoé é recontar o homem: seus impasses, suas falhas, suas reações diante da privação e do encontro com o desconhecido. No limite, o náufrago permanece como figura de transição — entre um mundo que colapsou e outro que ainda não se formou. E é nesse intervalo que reside o verdadeiro drama: não no mar revolto, mas na reconstrução da própria consciência em terra firme.
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