Nos anos 1980, a música circulava em fitas cassete copiadas com um misto de paixão e ousadia, alimentando o desejo de fãs por gravações raras e bandas emergentes. Em “Mixed by Erry”, essa cultura da pirataria ganha um retrato vibrante e nostálgico, narrando a trajetória de três irmãos napolitanos que transformaram um passatempo em um império clandestino. Erry, o protagonista, não tem o carisma de um DJ tradicional, mas encontra na confecção de mixtapes uma maneira de se conectar com as pessoas. O que começa como um gesto pessoal — o desejo de compartilhar músicas que tocam a alma — evolui para um negócio grandioso, confrontando autoridades, mafiosos e a chegada do temido CD.
Sob a direção de Sydney Sibilia, o filme captura o paradoxo entre a rebeldia e a inevitável colisão com a realidade. Diferente de “A Incrível História da Ilha das Rosas”, onde a subversão parecia quase ingênua, aqui o diretor encontra equilíbrio entre a comédia e a crueza do cotidiano. Os personagens, impulsionados por um desejo genuíno de deixar sua marca na história, são retratados com uma autenticidade que prende a atenção. No entanto, a narrativa não os santifica: há um deslumbramento juvenil que os impede de enxergar as consequências de suas escolhas. Sibilia não condena Erry, tampouco o redime, permitindo que o público decida até que ponto sua busca pela disseminação musical é um ato revolucionário ou apenas uma ilusão embalada em canções pop.
O espírito das mixtapes ressoa em toda a trama. Quem já presenteou alguém com uma fita personalizada sabe que esse gesto é mais do que uma simples seleção de faixas: é um pedaço da alma de quem grava, uma tentativa de tocar o coração alheio. A trilha sonora do filme reforça essa ideia, combinando clássicos dos anos 1980 com sucessos italianos e espanhóis menos conhecidos, criando uma experiência sonora que potencializa a nostalgia. A música, afinal, transcende barreiras e tendências passageiras — sua força está na emoção que desperta.
A história dos irmãos que ousaram desafiar o sistema não poderia ter ocorrido em outro lugar senão Nápoles, cidade marcada pela musicalidade e pela astúcia de seus habitantes. O filme, embora carregado de elementos ficcionais, preserva a essência de um conto real que se desenrolou entre becos e mercados informais. Há algo de profundamente cinematográfico na ascensão e queda desse trio, uma trajetória que poderia ser comparada a tantos relatos clássicos de pobres que desafiam o status quo e, por um instante, dominam o jogo. Mas será que o bem sempre triunfa? A resposta não é tão óbvia quanto parece.
★★★★★★★★★★