Romance indonésio de 2025 se torna o primeiro filme do país a alcançar o topo mundial da Netflix Divulgação / Netflix

Romance indonésio de 2025 se torna o primeiro filme do país a alcançar o topo mundial da Netflix

Se a vida tem surpresas, o amor não é nada menos que o encadeamento de fenômenos em que a subversão da lógica é a única lei. Como as ilusões nunca precisaram de justificativa ou licença, a humanidade permanece se deixando levar por uma ideia de mundo perfeito que, claro, contempla em grande medida, na maior medida possível, o conceito do amor como uma força verdadeiramente poderosa, e como tal, refratária a todo mecanismo de controle.

Dessa maneira, o enamoramento, o apaixonar-se, a concertação de duas pessoas quanto a trilhar um mesmo caminho e fazer de suas vidas uma trajetória só, seria antes de mais nada o prólogo de uma revolução, pequena no começo, mas com todos os elementos para adquirir caráter universal e transformar-se na oportunidade mais certa de recompor o mundo como um lugar novo, acolhedor, sem tanta hostilidade, com menos sanha por poder e que refutasse de imediato todo plano de dominar.

“Corações Prometidos” mostra uma realidade bem diversa do que se tem no Ocidente, seu trunfo e seu grande obstáculo junto a públicos de outras praças. O indonésio Anggy Umbara vai ao romance best-seller de mesmo título de Habiburrahman El Shirazy para desenredar a história de Niyala, a típica mocinha sofredora dos contos de fadas. O roteiro de Oka Aurora frisa essa natureza melodramática da trama, muito baseada na observância aos preceitos islâmicos, uma pedra no sapatinho de cristal de Niyala de que ela sequer cogita se livrar.

“Corações Prometidos” começa retratando a infância de Niyala, que aos sete anos perde a mãe e reluta em deixar sua aldeia e seguir para Jacarta, onde há de concluir os estudos e cursar a faculdade de medicina, porque não quer deixar o pai sozinho. Soa meio despropositada toda essa independência de uma garota criada num lugarejo provinciano, dentro dos costumes do islã, mas se assim não fosse, não haveria filme; Umbara precisa de todos os clichês que puder juntar para corresponder ao que El Shirazy escrevera, e que ninguém espere por grandes reviravoltas ou que uma protagonista com essa constituição vá jogar seu nome no vento para afrontar a família ou a comunidade, a exemplo do que se assiste nas telenovelas brasileiras.

Niyala cumpre seu destino, gradua-se médica e retorna ao povoado natal, escandalosamente mais pobre e refém dos pequenos déspotas que erigiram fortunas sobre a miséria de seus concidadãos. Beby Tsabina dá vida a uma mártir unidimensional, lacrimosa, mormente depois que concorda em casar-se com Roger, o filho do magnata local que se alia com o pai num golpe político. A performance de Dito Darmawan é o correspondente masculino à demasiada placidez de Tsabina, mas o diretor tenta uma cartada final que, talvez, agrade a alguns ao reunir Niyala e Faiq, um amigo de infância obrigado a desistir das bodas com Diah, de Caitlin Halderman, porque descobre que ele e a noiva foram nutridos pela mesma ama quando bebês. Novamente, Umbara saca de uma solução deus ex machina e concede a Niyala e Faiq seu final feliz, numa das produções mais superficiais de todos os tempos. E o cinema indonésio, de ótimos suspenses brutais feito “Fronteira Sombria” (2024), dirigido por Edwin, não tem nada com o peixe.

Filme: Corações Prometidos
Diretor: Anggy Umbara
Ano: 2025
Gênero: Drama/Romance
Avaliação: 6/10 1 1
★★★★★★★★★★
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.