Jean Purdy foi um dos nomes fundamentais para um dos marcos científicos mais impactantes do século 20, mas sua história permaneceu obscurecida por décadas. “Joy” resgata essa trajetória e lança luz sobre uma injustiça histórica: a exclusão sistemática de uma mulher que desempenhou papel crucial no desenvolvimento da fertilização in vitro (FIV). O filme se passa no final dos anos 1960, em Cambridge, onde Purdy (Thomasin McKenzie) se junta ao biólogo Bob Edwards (James Norton) e ao obstetra Patrick Steptoe (Bill Nighy) em uma pesquisa que transformaria a medicina reprodutiva. Durante mais de uma década, o trio enfrentou ceticismo acadêmico, resistência da igreja e desconfiança da imprensa, até conseguir a façanha de viabilizar o nascimento do primeiro bebê concebido por FIV.
O mérito da narrativa está em evidenciar o apagamento histórico de Purdy. Se nomes como Edwards e Steptoe receberam reconhecimento, ela permaneceu à margem dos relatos oficiais. Esse silenciamento ecoa outras injustiças sofridas por cientistas mulheres, como retratado em “Estrelas Além do Tempo”. O filme, consciente desse déficit histórico, busca reparação ao enfatizar seu papel ativo nos experimentos e na documentação dos avanços, além de seu trabalho essencial na viabilização técnica da FIV.
A construção dramática, entretanto, oscila em seu desenvolvimento. O roteiro insiste em diálogos expositivos que, embora necessários para contextualizar a complexidade científica, retardam o envolvimento emocional do espectador nos primeiros atos. A frieza acadêmica se sobressai por um tempo, mas é diluída pela força das interpretações, especialmente de McKenzie e Nighy, que imprimem camadas de vulnerabilidade e determinação a seus personagens. Quando finalmente a conquista se concretiza, o filme atinge sua carga emocional plena, especialmente para aqueles que compreendem a realidade da infertilidade e as barreiras médicas e sociais que a cercam.
Apesar de seu valor histórico e da relevância da causa que defende, “Joy” poderia ter aprofundado mais as tensões morais que cercaram a pesquisa. O dilema ético da manipulação da vida humana e a resistência enfrentada pelos pioneiros da FIV são abordados de maneira funcional, mas sem um mergulho que desafiasse o público a refletir mais profundamente. Uma perspectiva mais centrada nas mulheres que aceitaram se submeter a procedimentos experimentais teria enriquecido o relato e ampliado a carga dramática. O impacto do preconceito e do julgamento sobre essas pacientes, que depositaram esperança em uma ciência ainda incerta, merecia mais espaço na narrativa.
Além disso, o filme perde a oportunidade de explorar uma das mais gritantes omissões da história: a exclusão do nome de Jean Purdy da placa comemorativa da primeira clínica de FIV. Esse detalhe, que sintetiza o esquecimento institucionalizado, poderia ter sido um dos momentos mais simbólicos da obra. Ainda assim, “Joy” cumpre a função de restaurar parte da memória de uma mulher essencial para a medicina moderna. Sua vitória pode ter sido tardia, mas permanece necessária e incontestável.
★★★★★★★★★★