Se você entrou no hype do Studio Ghibli, mas não conhece nada — chegou o momento de conhecer, na Netflix

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Alguns filmes saem da tela e se instalam no imaginário coletivo de forma definitiva. “A Viagem de Chihiro”, obra-prima de Hayao Miyazaki, não se limita a narrar a jornada de uma jovem perdida em um mundo fantástico; ela projeta um espelho para o espectador, refletindo temas universais de crescimento, identidade e transformação. Mais do que um triunfo visual, a animação do Studio Ghibli desafia convenções narrativas e rejeita simplificações, construindo um universo que pulsa com complexidade e simbolismo. Sua grandiosidade não está apenas na estética impecável, mas na forma como articula magia e realidade para criar uma experiência singular.

Desde os primeiros instantes, acompanhamos Chihiro, uma menina hesitante diante da iminência da mudança. Sua entrada no mundo dos espíritos é abrupta e inegociável; não há tempo para lamentações ou hesitações. Miyazaki conduz esse rito de passagem sem apelar para sentimentalismos fáceis ou soluções convencionais. Em vez disso, cada obstáculo é apresentado como uma prova de amadurecimento, onde a adaptação não é apenas desejável, mas necessária. Trabalhar no banho de espíritos, lidar com figuras enigmáticas como Haku e enfrentar a severidade de Yubaba são desafios que exigem de Chihiro uma maturidade que ela ainda não sabia possuir.

O realismo dentro da fantasia é um dos grandes méritos do filme. O universo construído por Miyazaki segue sua própria lógica interna, dispensando exposições didáticas e permitindo que o espectador descubra seus mistérios organicamente. O banho dos espíritos, os trens que cortam águas intermináveis, as criaturas cujas intenções oscilam entre o enigmático e o ameaçador — cada elemento da narrativa é dotado de um peso simbólico que enriquece a experiência de quem assiste. Diferentemente do que se vê em muitas animações ocidentais, onde os conflitos costumam ser estabelecidos de forma explícita e as resoluções são evidentes, “A Viagem de Chihiro” exige uma leitura atenta, recompensando aqueles dispostos a mergulhar em suas camadas interpretativas.

A riqueza visual do filme é inegável. Cada cenário, cada textura, cada movimento dos personagens parece meticulosamente planejado para criar uma imersão completa. Miyazaki domina a arte de transformar pequenos gestos em momentos memoráveis: um olhar de dúvida, um breve suspiro, a forma como o vento interage com os ambientes. Se no cinema ocidental a animação é frequentemente relegada a um status de entretenimento infantil, aqui ela se impõe como uma forma de arte plena. O voo de Chihiro e Haku pelos céus, a jornada solitária no trem, a fluidez dos espíritos desfilando pelo banho — todas essas cenas poderiam ser analisadas individualmente como pinturas em movimento, carregadas de beleza e significado.

A trilha sonora de Joe Hisaishi intensifica essa imersão, indo além da função tradicional de pontuar momentos dramáticos. Suas composições se integram organicamente ao universo do filme, criando um vínculo entre imagem e som que amplifica a atmosfera de encantamento e introspecção. A música não apenas acompanha a história; ela a habita, tornando-se parte do próprio tecido narrativo. Os temas melancólicos, os crescendos discretos e os silêncios estrategicamente inseridos garantem que cada cena carregue um impacto emocional genuíno.

Mas “A Viagem de Chihiro” não se destaca apenas pelo esmero técnico. Seu verdadeiro impacto reside na forma como aborda temas de grande profundidade. A industrialização e suas consequências sobre a cultura tradicional, a efemeridade da infância, o perigo do consumismo desenfreado — são todos aspectos que permeiam a narrativa, muitas vezes de forma sutil, mas sempre presentes. O arco de No-Face, por exemplo, ilustra os riscos da busca desenfreada por aceitação e a corrosão que o desejo sem limites pode causar. A evolução de Chihiro, por sua vez, sintetiza a jornada de amadurecimento humano, onde o medo dá lugar à resiliência e a identidade se constrói na superação.

Miyazaki evita os antagonismos simplificados que frequentemente marcam narrativas voltadas ao público infantojuvenil. Em vez de personagens unidimensionais, encontramos figuras multifacetadas. Yubaba, a princípio vista como a vilã da história, revela-se uma personagem de nuances complexas, motivada tanto por ambição quanto por responsabilidade. Haku, cuja presença é essencial para a trajetória de Chihiro, não é apenas um guia, mas um indivíduo com seus próprios dilemas. Esse respeito pela inteligência do público, essa recusa em oferecer respostas fáceis, é um dos fatores que elevam o filme a um patamar de excelência raramente alcançado.

Uma questão frequentemente levantada diz respeito à adaptação da obra para diferentes idiomas. A dublagem ocidental, apesar de competente, altera nuances do roteiro original e, em alguns momentos, atenua a carga simbólica de certos diálogos. Para aqueles que buscam uma experiência mais fiel à visão de Miyazaki, assistir ao filme em japonês, com legendas, é uma escolha recomendada. Dessa forma, preserva-se a cadência da interpretação e a riqueza linguística dos diálogos.

O impacto de “A Viagem de Chihiro” vai além do tempo e da cultura. O filme se mantém atual não apenas por sua estética impecável, mas pela atemporalidade de seus temas e pela maneira como desafia a percepção do espectador. Cada nova exibição revela detalhes antes despercebidos, ampliando a experiência e reforçando seu lugar entre as maiores realizações do cinema. Poucas narrativas conseguem capturar com tamanha precisão a complexidade do amadurecimento, equilibrando deslumbramento e introspecção com uma maestria poucas vezes igualada. Se há um filme que resiste ao passar dos anos e continua a encantar e instigar reflexões, este é “A Viagem de Chihiro”.

Filme: A Viagem de Chihiro
Diretor: Hayao Myiazaki
Ano: 2001
Gênero: Animação/Aventura/Fantasia
Avaliação: 10/10 1 1
★★★★★★★★★★