Dizem que todo signo tem um autor que representa sua essência. Mentira. Todo signo tem é um autor que lhe dá urticária. Um escritor cuja existência parece ter sido forjada sob medida para irritar seus instintos mais nobres — ou suas neuroses mais íntimas.
Não estamos falando de desafetos banais, como aquele amigo que “não conseguiu terminar Dom Casmurro” porque “achou muito denso”. Estamos falando de ódio astrológico legítimo, alinhado por Saturno e impresso em letra 12, com espaçamento duplo e trauma vitalício. Um escorpiano diante de Jane Austen. Um taurino lendo Kafka. Um geminiano tentando sobreviver a Dostoiévski sem abrir doze abas no navegador.
O mapa astral não mente: há clássicos que você nunca vai terminar. E não porque são ruins — mas porque são seus antagonistas cósmicos. São livros que te encaram de volta, franzem a sobrancelha e dizem: “Você não vai me suportar. E está tudo bem”.
Este texto não veio encontrar seu autor favorito. Veio apontar o dedo para aquele que te tira do sério — com base em nada além do seu signo, seu ego e seu histórico de abandono de leitura na página 37.
Aceite. Ou pule para o signo do seu ex. Só pra ter certeza.
Áries vive no modo “correria” desde que nasceu. Ele lê como quem atravessa um incêndio: rápido, direto, com adrenalina. Já Proust escreve como quem descreve cada centímetro da fumaça. Em “Em Busca do Tempo Perdido”, o francês passa duzentas páginas revivendo o gosto de um biscoito. Para Áries, isso é tortura gourmet. A frase ainda nem acabou e ele já pulou três parágrafos — ou jogou o livro no aquecedor. Se Marcel estivesse vivo, provavelmente seria atropelado por um ariano apressado num patinete elétrico, ouvindo podcast sobre estoicismo.
Taurinos prezam por conforto, estabilidade e senso estético. Kafka entrega insetos. E processos judiciais onde ninguém explica nada. Em “A Metamorfose”, o protagonista acorda e percebe que virou uma barata. Touro, leitor meticuloso que é, nem chegou na metade da frase e já está buscando a nota de rodapé que diga: “Brincadeira”. Mas não tem. Kafka nunca alivia. Ele mergulha o leitor num universo sem lógica, sem final, sem manta de linho egípcio. Para Touro, isso não é literatura — é um pesadelo com cheiro de mofo e papel reciclado.
Gêmeos quer diálogos rápidos, trocadilhos inteligentes e histórias que podem ser lidas enquanto espera o Uber. Dostoiévski te entrega um homem trancado num porão, filosofando com a própria sombra durante trezentas páginas. Em “Crime e Castigo”, o protagonista mata uma senhora e depois passa o resto do livro decidindo se sentiu culpa ou só má digestão. Gêmeos lê três capítulos, começa a divagar, e quando percebe, já está assistindo vídeo no YouTube: “Dostoiévski explicado em 6 minutos com emojis”. E mesmo assim, pula para 1.5x.
Câncer é pura emoção, melodrama familiar e vínculos afetivos que duram mais que certas democracias. Camus, por outro lado, é um iceberg literário. Em “O Estrangeiro”, o protagonista enterra a mãe e vai à praia. No dia seguinte. Sem chorar. Para Câncer, isso é psicopatia. Ele procura emoção, e Camus responde com o vácuo existencial. O canceriano quer afeto, Camus te devolve o silêncio cósmico. Ler Camus com ascendente em Câncer é como tentar dar um abraço em um armário vazio — e ainda ser criticado por sentir demais.
Leão precisa de palco. De enredo. De aplauso. E Virginia Woolf, francamente, não está nem aí. Em “As Ondas”, ela mergulha no fluxo de consciência dos personagens sem te dar sequer uma introdução decente. Nada de protagonista, nada de clímax, nada de frases que você possa grifar com orgulho. Para Leão, isso é sabotagem literária. Ele quer brilho, ela oferece sombra. Ele quer drama, ela dá silêncio. Woolf escreve como se estivesse ignorando Leão de propósito — e o pior: com total classe.
Virgem acredita em pontuação, estrutura e revisão tripla. Kerouac escreveu “On the Road” em um rolo contínuo de papel, sem parágrafos, sem capítulos e — aparentemente — sem controle emocional. Para Virgem, isso não é liberdade criativa, é surto editorial. Ler Kerouac sendo virginiano é como assistir a um malabarista bêbado atravessando um cabo de aço sem rede. O livro termina, e o virginiano ainda está tentando colocar vírgulas mentalmente, como quem reorganiza uma sala depois de uma festa caótica.
Libra busca harmonia, beleza formal e frases que fluam como um dueto de piano e violino. Faulkner entra em cena como uma bateria de escola de samba em chamas. Em “O Som e a Fúria”, ele mistura narradores confusos, tempos verbais desordenados e uma sintaxe que parece ter sido editada por um médium. Libra quer leveza, Faulkner entrega trauma. É como esperar uma valsa e receber uma guerra civil em forma de parágrafo. No fim, Libra até finge que gostou — mas só pra não criar conflito.
Escorpião gosta de profundidade, tensão sexual e personagens emocionalmente disfuncionais. Austen, porém, te dá bailes, casamentos e cartas escritas com penas de ganso. Em “Orgulho e Preconceito”, ninguém se joga de uma ponte, ninguém enlouquece de desejo — o máximo que acontece é um rubor escandaloso. Para Escorpião, isso é soft demais. Ele quer paixão avassaladora, ela entrega chá com bolinhos. Austen escreve como quem reprime a libido com pontuação elegante. Escorpião lê esperando sangue — recebe etiqueta.
Sagitário quer aventura, velocidade, narrativas que cruzem oceanos e continentes. Henry James, em compensação, passa cem páginas descrevendo como uma personagem quase decidiu sair de uma sala. Em “A Volta do Parafuso”, o mistério é tão sutil que o leitor termina o livro sem saber se aconteceu algo ou se sonhou. Para Sagitário, isso é tortura. Ele quer ação, James oferece hesitação. É como mandar um mochileiro para meditar dentro de um elevador com trava psicológica.
Capricórnio acredita que talento é suor, que genialidade se conquista com disciplina. Aí vem Oscar Wilde — um sujeito que faz trocadilhos brilhantes enquanto toma chá de jasmim — e desmorona essa lógica. Em “O Retrato de Dorian Gray”, tudo parece fácil demais: beleza, decadência, frases de efeito. Wilde nunca escreve com esforço. E isso irrita profundamente o capricorniano, que passou três meses tentando entender Thomas Mann. No fundo, Capricórnio não odeia Wilde — odeia a inveja que sente dele.
Aquário é o signo da inovação, da provocação, da linguagem que se estica para o futuro. Dickens é tudo o que Aquário despreza: sentimental, prolixo e vitorianamente previsível. Em “Oliver Twist”, cada página parece pedir aplausos por ser tão “emocionante”. Para Aquário, é como se a literatura tivesse sido engessada por um roteirista de telenovela com excesso de açúcar no sangue. O aquariano termina a leitura com um único pensamento: “Isso teria sido bem melhor em ficção científica minimalista islandesa.”
Peixes quer sonhar, flutuar, se perder em metáforas líquidas e universos paralelos. Orwell te prende numa distopia onde até os seus pensamentos são monitorados. Em “1984”, a liberdade é uma ilusão, o amor é um crime e os ratos, bem… os ratos fazem o resto. Para Peixes, isso é um ataque direto à sua aura. Ele queria voar com dragões simbólicos — Orwell tranca a janela e diz: “Agora leia isso em silêncio e sem esperança.” Ao final, Peixes chora. E Orwell apenas anota o choro como evidência de fraqueza.