Se há uma data precisa para se definir o uso da palavra “terrorismo”, essa data é 5 de setembro de 1972. Ninguém poderia saber, claro, mas esse era o dia em que o Setembro Negro, um grupo de guerrilheiros árabes pela causa palestina, levaria a cabo a invasão ao dormitório dos atletas israelenses em pleno andamento da vigésima edição dos Jogos Olímpicos modernos, numa ação que ninguém sabia ainda como classificar. A massificação do termo é uma gota d’água no oceano de macabras novidades detalhadas por “Setembro 5”, a perfeita reconstituição do evento mais chocante daquele ano, quiçá o mais simbólico no que toca ao ingresso na caótica ordem mundial do século 20, e sem dúvida o mais tétrico desde o fim da Segunda Guerra (1939-1945), com seu abjeto Holocausto. Em pouco mais de hora e meia, o suíço Tim Felhbaum faz o espectador voltar 53 anos no tempo lançando mão de todos os detalhes que pode, a começar pela anacrônica sala de controle de TV onde uma equipe de jornalistas nunca para e só põe no ar o que recebem. O que dá azo a problemas de outra natureza.
Felhbaum e os corroteiristas Moritz Binder e Alex David conseguem captar a euforia dos profissionais liderados por Roone Arledge (1931-2002), o então diretor da ABC Sports, diante do evento mais aguardado por atletas e torcedores do planeta inteiro, e pelo que o diretor deixa à mostra, quem nunca soube o desfecho da história até cogita um final feliz. “Setembro 5” tem todos os cacoetes de um bom docudrama, obsessivo em recompor o cenário onde toma forma a cobertura dos torneios e explicar em que quadra estava a humanidade quando os homens do Setembro Negro acessaram a vila olímpica em Munique e tiraram a vida de David Mark Berger (1944-1972) e de Yossef Romano (1940-1972), dois levantadores de peso da delegação israelense. Partido ao meio, o cadáver de Romano foi mantido aos pés dos nove reféns, um capítulo desse enredo macabro que nem a ABC nem ninguém registrou, mas que veio à tona com a rigorosa investigação das autoridades alemãs. Esse é um ponto no qual Felhbaum faz questão de se fixar, depois de esmiuçar um pouco mais a atuação dos jornalistas do ABC ao longo do episódio.
Arledge permanece como o centro do filme por muito tempo, até passar a dividir o protagonismo com Geoffrey Mason, o incansável produtor que desdobra-se em dois para fazer com que o show nunca pare e os novecentos milhões de telespectadores não percam nenhum lance. “Setembro 5” confere o devido destaque ao equívoco da ABC, a boa e velha barriga, ao noticiar que havia sobreviventes, quando os terroristas já tinham chacinado os nove reféns no aeroporto, lembrando “7 Dias em Entebbe” (2018), do brasileiro José Padilha, sobre paramilitares que mantiveram cativos passageiros judeus, forçando a negociação da liberdade de terroristas palestinos. Peter Sarsgaard e John Magaro reforçam o peso dramático do que se tem na tela, num lembrete de que todo dia pode ser 5 de setembro de 1972.
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