A melhor estreia da Netflix em abril: amor e mistério no romance de Graham Swift que acerta onde a alma costuma doer Divulgação / Hulu

A melhor estreia da Netflix em abril: amor e mistério no romance de Graham Swift que acerta onde a alma costuma doer

As ruínas deixadas por uma era que já não crê no futuro reverberam na figura de Jane Fairchild, criada num lar aristocrático inglês em declínio, enquanto o século 20 ainda ensaia suas primeiras fraturas. Em um cenário marcado pela rigidez das convenções sociais e pelo vazio polido da riqueza, Jane é mais que uma observadora subalterna — é uma mulher que descobre, por entre frestas do interdito, um caminho para a construção de si. “O Domingo das Mães”, extraído da prosa contida e devastadora de Graham Swift, transforma sua protagonista numa espécie de espiã sensível, alguém que vasculha a banalidade dos ricos não com revolta, mas com o faro de quem descobre ali a matéria-prima de uma sensibilidade a ser lapidada. Eva Husson parte desse encontro entre invisibilidade e desejo para montar uma narrativa silenciosamente febril, onde as lacunas da fala e os excessos da memória desenham, aos poucos, um retrato íntimo da escrita como salvação.

O roteiro de Alice Birch tem a precisão de um diário que sangra sem alarde. A alternância entre imagens de contemplação e diálogos rarefeitos engendra um fluxo de percepções que se impõe pela ambiguidade: o que se passa atrás das portas imaculadas daquela casa? A pergunta ecoa na cabeça de quem assiste enquanto a câmera ronda os corredores com curiosidade contida. Quando o patrão de Jane, durante um café da manhã insosso, indaga sobre seus planos para a folga, a narrativa começa sua dança entre o permitido e o impronunciável. Paul Sheringham — jovem aristocrata destinado a um casamento estratégico — é, naquele instante, o contraponto encarnado à existência reduzida da empregada. Mas sua nudez é menos carnal que simbólica: ao expor-se com Jane, ele se revela mais despido do que qualquer traje poderia ocultar. As cenas, conduzidas com pudor lírico, remetem ao erotismo contido de “O Amante de Lady Chatterley”, onde o corpo é a última trincheira contra o vazio.

Nas pausas entre os encontros clandestinos, há espaço para algo ainda mais subversivo: os livros. Jane se debruça sobre autores como Virginia Woolf e Stevenson não como quem foge da realidade, mas como quem a reinventa por dentro. O afeto dedicado a essas leituras é o mesmo que dedica ao toque, aos silêncios e às despedidas — cada frase absorvida é um ensaio para o gesto futuro de escrever. Quando Paul deixa a cena, abrindo espaço para Donald — homem negro que ocupará um lugar de afeto real em sua vida — o filme vira a página, sem rasgá-la. Colin Firth e Olivia Colman, quase deslocados em seus papéis de patrões apáticos, funcionam como estátuas de um tempo prestes a se dissolver, o que reforça, por contraste, a pulsação discreta entre Odessa Young e Sope Dirisu. Nessa tensão entre o que foi e o que será, Husson ancora sua aposta narrativa.

Ao incorporar Glenda Jackson no papel da Jane idosa, a diretora não apenas transporta sua história para o presente — ela reafirma o gesto de resistência contido em cada escolha da personagem. A memória não é evocada com nostalgia, mas como campo de reconfiguração: o que Jane viveu, amou e escreveu compõe uma ética de invenção, onde o tempo já não obedece à lógica dos salões vitorianos. Eva Husson, longe de querer reinventar a linguagem, escava sua potência no detalhe. Não busca epifanias nem rupturas estéticas; interessa-lhe o modo como o ordinário pode, subitamente, se iluminar. Assim, sua estética é de filigrana: borda o indizível com a leveza de quem sabe que grandes histórias não gritam — apenas persistem. É nessa persistência que o filme encontra sua força.

Entre a literatura e o erotismo, entre a opressão social e a autoafirmação, entre o passado e a reinvenção, o filme escolhe não escolher. Deixa que as camadas convivam, se contaminem, se atritem. Se há uma beleza ali — e há —, ela não é escancarada, mas exige do olhar a mesma delicadeza com que Jane aprende a ver o mundo. “O Domingo das Mães” se revela, então, como um testemunho da escrita que germina em silêncio, nos desvãos da servidão e nos interstícios do desejo. Nada de slogans, grandes lições ou transformações redentoras. Apenas uma mulher que escreve — e, ao escrever, recusa ser invisível.

Filme: O Domingo das Mães
Diretor: Eva Husson
Ano: 2021
Gênero: Romance/Thriller
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★