Com Brad Pitt, filme baseado em best seller do New York Times com 2 milhões de cópias vendidas está na Netflix Melinda Sue Gordon / Sony Pictures

Com Brad Pitt, filme baseado em best seller do New York Times com 2 milhões de cópias vendidas está na Netflix

O esporte, frequentemente exaltado como território da emoção e da intuição, muitas vezes se revela um jogo de estratégias racionais, onde estatísticas e probabilidades desempenham papel tão crucial quanto o talento bruto. “O Homem que Mudou o Jogo” desmantela a mitologia do beisebol como um espetáculo de instinto e tradição, explorando a trajetória real de Billy Beane, o gerente-geral do Oakland Athletics que ousou desafiar um sistema secular ao adotar um modelo estatístico para construir sua equipe. Sob a direção precisa de Bennett Miller e o roteiro afiado de Aaron Sorkin, o filme vai além da esfera esportiva e se posiciona como uma reflexão sobre inovação, resistência à mudança e a luta contra dogmas estabelecidos.

A história gira em torno dos bastidores do beisebol, onde decisões estratégicas moldam o futuro de uma franquia. Interpretado com sutileza por Brad Pitt, Beane não é um idealista ingênuo, mas um pragmático que busca uma alternativa viável à disparidade financeira que separa times ricos de clubes modestos. Diante da perda de seus principais jogadores para adversários com orçamentos exorbitantes, ele encontra no jovem economista Peter Brand (Jonah Hill) um aliado improvável. Brand propõe um modelo baseado em estatísticas avançadas, desafiando o critério tradicional dos olheiros que historicamente avaliavam jogadores por aspectos subjetivos. A dinâmica entre os dois personagens é a espinha dorsal do filme, contrapondo o ceticismo de um meio tradicionalista à precisão fria dos números. Hill entrega uma atuação contida e certeira, equilibrando o ímpeto calculista de seu personagem com um respeito reverente ao jogo.

Aaron Sorkin, mestre em transformar temas complexos em diálogos ágeis e carregados de subtexto, constrói um roteiro que transcende o esporte. O embate entre Beane e a velha guarda do beisebol, representada pelo técnico Art Howe (Philip Seymour Hoffman, imponente mesmo em sua economia de gestos), ilustra a resistência ferrenha a qualquer tentativa de reformulação de um sistema enraizado. O filme subverte expectativas ao evitar a fórmula tradicional das narrativas esportivas: em vez de se apoiar no êxtase de jogos decisivos, ele foca na tensão dos bastidores, nas negociações frias e nos dilemas éticos de um homem que aposta sua carreira em um método não convencional. A ironia é latente quando dirigentes descartam talentos por razões banais, revelando a natureza arbitrária de um processo que sempre se pretendeu científico, mas que, até então, se baseava em percepções subjetivas.

A estética visual acompanha essa sobriedade. A fotografia não busca glamourizar o esporte, mas capturar a aridez dos escritórios e vestiários onde o verdadeiro jogo acontece. A trilha sonora se mantém discreta, permitindo que as atuações e a argumentação dominem a experiência. O mérito do filme reside na capacidade de transformar um tema potencialmente árido em um drama envolvente, sustentado por personagens ricos e um roteiro que dosa com precisão tensão e alívio cômico.

Pitt constrói um protagonista que foge dos arquétipos convencionais de liderança. Beane não é um gênio infalível, mas um homem repleto de dúvidas e hesitações, cujo percurso é marcado por sucessos pontuais e derrotas dolorosas. Sua contenção emocional reforça a autenticidade do personagem, tornando seus momentos de frustração mais pungentes. A química com Hill e o embate silencioso com Hoffman adicionam complexidade à narrativa, que, por baixo da frieza dos números, ainda reconhece o peso humano das decisões tomadas.

Mais do que um relato sobre estatísticas aplicadas ao esporte, “O Homem que Mudou o Jogo” desvela as engrenagens invisíveis do beisebol e questiona as noções convencionais de talento e mérito. A ironia de que Hollywood tenha investido mais dinheiro no filme do que o próprio Oakland Athletics gastou para montar seu time apenas reforça a provocação embutida na narrativa. O filme não se trata apenas de um método, mas da coragem de desafiar um sistema. Ao converter uma história sobre números em um drama humano de grande impacto, ele se estabelece como um dos mais instigantes estudos sobre inovação e resistência ao novo, demonstrando que, no jogo do progresso, vencer nem sempre significa seguir as regras tradicionais.

Filme: Homem Que Mudou o Jogo
Diretor: Bennett Miller
Ano: 2011
Gênero: Biografia/Drama/Esporte
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★