Indicado a 13 Oscars em 2025, o filme mais aguardado do ano acaba de chegar ao Prime Video Divulgação / Pathe Films

Indicado a 13 Oscars em 2025, o filme mais aguardado do ano acaba de chegar ao Prime Video

“Emilia Pérez” é um pastiche. A partir dessa informação, pode-se começar a tecer alguma análise minimamente honesta a respeito do filme do francês Jacques Audiard, uma rapsódia sobre um traficante de drogas em busca de redenção que une o útil ao agradável quando decide submeter-se à redesignação de gênero, escapando de chefões dos narcocartéis que ousou enfrentar — sendo ele mesmo um desses homens truculentos, brutais, cheio do que hoje tem sido classificado como masculinidade tóxica. 

Feita esta ponderação, o filme de Audiard é um corajoso manifesto de estilo, por meio do qual o diretor-roteirista chega a um melodrama potente e de convictos exageros acerca do que o México tem se tornado, ainda que o México de Audiard seja o de estúdios parisienses, o que por seu turno suscita discussões bizantinas sobre a legitimidade ou o tom farsesco de uma história, baseadas apenas em determinismos estúpidos, mistificação e preconceitos quanto a um francês não ter “lugar de fala” (ai, que preguiça…) para dirigir uma produção que trata das mazelas de um outro país.

Livremente inspirado em um capítulo de “Écoute” (2018), de Boris Razon, “Emilia Pérez” é muito menos explícito do que se possa imaginar. O diretor recorre a minudências a exemplo de uma tela de TV mostrando um protesto de mulheres contra o feminicídio numa rua da Cidade do México e crimes perversos estampados nos típicos pasquins sensacionalistas enquanto recrudesce a impressão de que algo mais objetivo e mais devastador vai acontecer a qualquer momento. Manitas Del Monte, um traficante com disforia de gênero, cerca-se das orientações e das providências necessárias para dar o passo mais decisivo e mais radical de sua vida e de alguma forma regenerar-se, encarnando a personagem-título, uma filantropa que coordena uma organização que ajuda famílias de alguma maneira afetadas pela violência do tráfico, em busca de apoio judicial para reivindicar o devido processo e a punição de assassinos e torturadores implacáveis, que mantêm cativos viciados inadimplentes ou sumiram com seus corpos.

Como até as pedras da rua sabem, Emilia Pérez é interpretada por Karla Sofía Gascón, uma mulher transgênero — que atirou o longa e a seu próprio trabalho num abismo de polêmicas infrutíferas ao sustentar que era perseguida por comentários xenófobos, racistas e gordofóbicos nas redes sociais quando teria sido muito mais fácil, a exemplo do que fez Emilia Pérez, assumir o erro e não pecar mais. Os crimes de Manitas não se apagaram só porque ele virou ela, mas quem em sã consciência não se afeiçoa a um vilão que descobre o jeito mais original e duro de reparar suas faltas, tanto mais se esse jeito é tornar-se quem sempre fora? Como também sabe-se à farta, as coisas não correram exatamente assim, e a grande vitória de “Emilia Pérez” foi ter provado de modo inconteste que, mesmo dentro dos temas mais delicados, daqueles que supúnhamos livres de cismas identitários que partem da própria comunidade retratada, o politicamente correto tem as pautas que considera justas. Em assim sendo, todas as minhas palmas para Audiard e Gascón.

Filme: Emilia Pérez
Diretor: Jacques Audiard
Ano: 2024
Gênero: Crime/Musical
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.