Entre as produções recentes que mais desafiam convenções e expectativas, “Pobres Criaturas” é um exercício audacioso de experimentação narrativa e estética. Sob a direção de Yorgos Lanthimos, o filme não se contenta em apenas contar uma história; ele desmonta e reconstrói arquétipos, conduzindo o espectador por uma jornada que questiona os alicerces da identidade, da liberdade e das imposições culturais. Inspirado livremente no romance homônimo de Alasdair Gray, o longa ressignifica a mitologia da criatura de Frankenstein, mas sem se limitar a uma simples releitura. O resultado é um espetáculo que transita entre o grotesco e o sublime, desafiando tanto o olhar quanto o intelecto do público.
A trama se desenrola em torno do excêntrico Dr. Godwin Baxter (Willem Dafoe), um cientista que, em um ato que desafia a ética e a lógica, transplanta o cérebro de um feto no corpo de sua mãe recém-falecida. Dessa experiência singular emerge Bella Baxter (Emma Stone), um ser cuja existência é marcada por um desenvolvimento cognitivo e emocional que foge de qualquer parâmetro convencional. Criada sob a tutela de Baxter, Bella experimenta o mundo com a curiosidade infantil de quem enxerga tudo pela primeira vez. No entanto, sua trajetória se torna ainda mais complexa ao conhecer Duncan Wedderburn (Mark Ruffalo), um advogado hedonista que a leva para uma viagem pela Europa, onde sua consciência sobre si mesma e sua independência se ampliam de forma irreversível.
“Pobres Criaturas” é um espetáculo que subverte expectativas. A fotografia arrojada, os cenários extravagantes e o design de produção detalhado constroem um universo que, embora não obedeça às regras do realismo, estabelece uma lógica própria. A estética empregada por Lanthimos flerta com o expressionismo, trazendo composições que oscilam entre o onírico e o absurdo, o que reforça o caráter de fábula distorcida da narrativa. Cada elemento visual serve como um espelho da psique da protagonista, acompanhando sua evolução de forma quase orgânica.
Entretanto, a verdadeira força do filme está em sua abordagem conceitual. Bella não é apenas um experimento científico ou uma mulher à margem das convenções sociais; ela encarna a possibilidade de uma existência sem amarras, sem os condicionamentos que moldam a maioria das pessoas. Diferentemente das narrativas tradicionais sobre emancipação feminina, Bella não luta contra estruturas opressoras — ela simplesmente desconhece a sua existência. Seu olhar sobre o mundo não é de resistência, mas de descoberta pura, tornando sua trajetória fascinante justamente por não seguir um caminho previsível. Lanthimos, ao evitar que sua protagonista se encaixe em discursos maniqueístas, constrói uma personagem que transcende qualquer categorização simplista.
A psicanálise freudiana também pode servir como uma lente para interpretar Bella, uma vez que sua jornada passa por um desenvolvimento sem repressões ou interditos. Sua relação com o desejo e com o corpo desafia qualquer noção de culpa ou moralidade imposta, o que inevitavelmente gera desconforto em certos espectadores. A protagonista percorre estágios de descoberta sem restrições, o que a torna uma presença disruptiva em qualquer ambiente em que se insere. Essa liberdade absoluta, tão rara dentro e fora da ficção, provoca um embate direto com aqueles que tentam reduzi-la a um padrão compreensível.
Emma Stone entrega uma performance arrebatadora, traduzindo com precisão a evolução da personagem sem recorrer a caricaturas. Sua interpretação captura tanto a ingenuidade quanto a intensidade visceral de Bella, tornando-a uma figura ao mesmo tempo enigmática e magnética. Mark Ruffalo adiciona camadas de ironia e deboche ao seu Duncan Wedderburn, tornando-o uma peça fundamental na jornada da protagonista. Já Willem Dafoe traz uma complexidade ambígua ao Dr. Baxter, oscilando entre o paternalismo e a fascinação científica. Cada atuação contribui para a construção de um universo em que os personagens não são meros coadjuvantes da trama, mas peças essenciais para a exploração das ideias centrais do filme.
“Pobres Criaturas” não busca agradar todos os públicos, e essa talvez seja uma de suas maiores qualidades. Sua estética incomum e suas reflexões incômodas desafiam o espectador a abandonar certezas e a mergulhar em um mundo onde a liberdade não é um conceito abstrato, mas uma vivência radical. O desconforto que pode causar é, na verdade, um convite à reflexão — uma provocação que ressoa muito além da sala de cinema. Em um panorama cada vez mais pautado pela previsibilidade, a ousadia da obra de Lanthimos reafirma o poder do cinema como uma arte capaz de questionar, transformar e, acima de tudo, expandir horizontes.
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